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A PEDAGOGIA RACISTA

18/11/2019 Cristian Góes Raízes Culturais

Criança branca "brincando" em cima de babá-criança negra e nascida livre.  (Foto: Jorge Henrique. Petrópolis, 1899 - Imagem 115 - KOUTSOUKOS, 2006).

 

No último artigo, tratei dos primeiros movimentos identitários para que o racismo, especialmente contra os negros, fosse se tornando uma instituição no Brasil. Todavia, ele não se enraizaria tão profundamente entre Nós, no mais profundo de nossas relações sociais, políticas e culturais, sem uma permanente pedagogia, de forte base religiosa, que foi desenvolvida naquele contexto colonial. 

Antes da chegada dos invasores ao Brasil, o Vaticano já havia publicado algumas normas que orientavam as expansões colonialistas dos séculos XV e XVI no Novo Mundo e lhes serviam de base espiritual. Assim, todos os interesses econômicos eram abençoados pela Igreja e transformados em missões salvacionistas. Portugal, por exemplo, tinha conseguido do Vaticano o pleno poder para agir em seu nome no Novo Mundo, afinal de contas, “descobria-se” o paraíso na terra. 

Entretanto, antes de estarem voltados para o Brasil, os olhos da “civilização” mercantil europeia miravam a África, em razão da grande quantidade de pessoas naquelas terras que poderiam ser capturadas e escravizadas nas colônias. A justificativa divina para o sequestro e o aprisionamento dos africanos foi a de que eles estariam entregues aos rituais de feitiçaria e/ou de adoração a Maomé. Por isso, segundo a lógica religiosa e mercantil, era preciso “salvá-los” e introduzir naqueles corpos negros, a partir do trabalho forçado, almas cristãs. 

Assim, as expansões mercantis se converteram em uma espécie de “novas cruzadas”, onde o negro africano seria, então, “resgatado” e mandado ao “paraíso” nas Américas. No Brasil, especialmente, a sua alma seria purificada a partir do trabalho forçado, o inferno da escravização. Em outras palavras, aqueles corpos subjugados ao serviço do Rei no paraíso terrestre poderiam libertar as suas almas para que eles chegassem a um outro paraíso, o celeste.

Essa lógica humanista cristã sustentou as expansões imperiais e se estendeu pelos séculos seguintes, até ganhar reforços científicos com o desenvolvimento de teorias biológicas sobre as raças. O que é preciso deixar nítido, conforme diz Fausto (2006: 52), é que “nem a Igreja nem a Coroa se opuseram à escravização do negro”, muito ao contrário. Estado, burguesia e igreja converteram a escravização em grande negócio, onde o trabalho forçado e a obediência ao senhor eram parte de um processo de purificação natural das almas. Essa pedagogia racista sustentava-se no livre avanço do capital, na devastação ilimitada da terra e na formação da elite nacional.

 

Limpeza da raça

Não é difícil perceber que o centro da ideologia racista é o apagamento da raça, e ela se confirma em uma Carta-Lei do Estado Português, de 1773, onde se dizia que os negros eram negros pela impureza de sua alma, expressa em seu corpo pela cor de sua pele. Assim, como revela Ribeiro (1995: 161), considerava-se plenamente “meritório realizar caçadas humanas, matando os que resistissem, como um modo de livrar o negro do seu atraso e até como um ato pio de aproximá-los do deus dos brancos”. 

Através dessa pedagogia da extrema violência, os negros africanos e já os primeiros brasileiros deviam se reconhecer inferiores, principalmente em razão da cor da pele, o que lhes fazia naturalmente submetidos ao senhor, ao branco, puro e superior, ao europeu. Desafricanizados e brasileiramente domesticados, índios e negros passam a receber nomes de santos católicos, sendo obrigados ao batismo e aos demais rituais religiosos, em uma catequese permanente onde vão desenvolver a crença de divina obediência e resignação eternas.

Essa ideologia, que se enraíza e naturaliza o racismo no Brasil, tem lances visíveis em alguns trechos dos Sermões do padre Antônio Vieira, explicados por Alfredo Bosi (1996). A argumentação utilizada pelo religioso é de que a vida do negro escravizado no Brasil se assemelhava à própria Paixão de Cristo, uma duríssima passagem por esta terra para que ele chegasse à completa redenção no paraíso celeste. Através da escravização, somente através dela, negras e negros pagariam por seus inúmeros pecados, que os fizeram nascer assim e, na medida em que eles passam a adorar e a temer somente a um único deus no céu e a obedecer aos seus senhores brancos na terra, limpariam as suas almas. 

Todo esse processo exigiu que os escravizados aceitassem, como se fosse um destino natural e espiritual, os castigos, uma “santa” e autoflagelação. Como disse, apenas os corpos seriam escravizáveis e deveriam sofrer as mortificações. As almas, ao contrário, poderiam conquistar a salvação, a “alforria eterna”, seriam limpas e chagariam ao paraíso brancas. Esta tortura vil e diária no “inferno doce”, como diz Bosi (1996: 146), era a própria lógica pedagógica de uma purgação redentora. Aos que resistiam, o destino era o inferno, a começar por aqui mesmo. 

Darcy Ribeiro (1995: 120) apresenta uma síntese dos permanentes castigos aos negros no Brasil colônia, um “sofrer todo o dia, o castigo diário das chicotadas soltas para trabalhar atento e tenso. Semanalmente vinha um castigo preventivo, pedagógico, para não pensar em fuga, e, quando chamava atenção, recaía sobre ele um castigo exemplar, na forma de mutilações de dedos, do furo de seios, de queimaduras com tição, de ter todos os dentes quebrados criteriosamente, ou dos açoites no pelourinho, sob trezentas chicotadas de uma vez, para matar, ou cinquenta chicotadas diárias, para sobreviver. Se fugia e era apanhado, podia ser marcado com ferro em brasa, tendo um tendão cortado, viver peado com bola de ferro, ser queimado vivo, em dias de agonia, na boca da fornalha ou, de uma vez só, jogado nela para arder como um graveto oleoso.”

 

Pedagogia que também forma os senhores

Como resultado dessa pedagogia da escravização salvífica, lembra Sidney Chalhoub (2012: 57), muitos escravizados pareciam desenvolver uma consciência de que precisavam suportar resignadamente os castigos físicos. No entanto, este ensinamento não apenas buscava dar forma aos escravizados, mas também era um educador fundamental para os próprios senhores. Os castigos eram um “privilégio de classe”, a confirmação da condição de superioridade do senhor. Fazer o uso mais violento e público do escravizado emprestava a quem mandava e batia a sensação de dono, de Senhor do Outro, mesmo sendo o agressor um mestiço ou até mesmo um negro.

Estas relações escravagistas não se davam apenas nos engenhos e nas minas, na zona rural, mas eram vistas nas cidades, no transporte de pessoas e cargas, na construção de prédios, em pequenas indústrias, no comércio, nas ruas e praças. A violenta exploração dos negros era generalizada. Muitos senhores terceirizavam os escravizados que tinham. Alguns faziam fortunas emprestando-os para trabalhos públicos e privados. Outros senhores, lembra Fausto (2006: 68), também “permitiam que os escravos fizessem seu ‘ganho’, prestando serviços ou vendendo mercadorias e cobravam deles, em troca, uma quantia fixa paga por dia ou semana”. 

Entre essas atividades “de ganho” dos escravizados negros, estavam a prostituição e mendicância, o que lhes emprestava um simulacro de liberdade. Eles eram vistos batendo palmas às portas das casas mais ricas, caminhando pelas ruas ou também, como diz Costa e Silva (2011: 49), “sentados em caixotes nas esquinas à espera de trabalho”. Homens, mulheres e crianças negras passavam o dia nas ruas e só voltavam para casa do senhor com o dinheiro fixado por seu dono. 

No caso das negras, era da lógica escravagista brasileira o livre acesso sexual do senhor, a quem pertencia o seu corpo e o seu destino. Desde muito criança, revela Costa e Silva (2011: 63), as “escravas estavam sujeitas a ser estupradas pelo dono, por seus filhos, por outros parentes do senhor e por feitores. Não eram poucos os senhores que possuíam verdadeiros haréns de cativas”.

 

O racismo em todos Nós

A força ideológica, desenvolvida repetidamente pelos aparatos do Estado, da Igreja, do Mercado, e combinada com a mais absoluta e constante violência física, vai edificar o racismo como ação naturalizada, principalmente contra os negros. Há um aprendizado para o reconhecimento da inferioridade a partir de sinais fenotípicos, como a cor da pele para os negros, e da superioridade civilizacional para os senhores, os brancos. 

Esse processo racista também é ensinado e aprendido a partir da divisão imposta aos próprios escravizados. O “boçal”, por exemplo, era o cativo recém-chegado, que não sabia a língua portuguesa e os costumes da nova terra; o “ladino” já estava algum tempo no Brasil, falava o mínimo de português e conhecia as regras da sobrevivência aqui; e o “crioulo”, escravizado e já nascido nas terras brasileiras. Informa Fausto (2006: 69) que os “mulatos e crioulos eram preferidos para tarefas domésticas, artesanais e de supervisão, cabendo aos escuros, sobretudo aos africanos, os trabalhos mais pesados”. Na prática, quanto mais negro, fenotipicamente falando, mais diferente, mais um Outro a ser apartado e violentado.

As dualidades livre/escravo e branco/negro não eram desmentidas tão somente pelo fato de existir negros já nascidos livres no Brasil ou que tenham adquirido a liberdade, nem mesmo por alguns deles que eram donos de outros homens. Cotidianamente, nas casas, ruas e praças, até que se provasse o contrário, o que era quase impossível, um negro era visto sempre como um escravo eterno. 

Em resumo, o Brasil vai se constituindo em uma sociedade escravo-racista, não porque os negros tivessem a função de colocar o sistema econômico para funcionar, mas porque eles eram constituintes da vida nacional, estavam em todos os lugares, tudo girava em torno deles e, assim, o racismo se transforma em uma instituição nacional que se enraíza longamente por nossa história.

No próximo texto, defendo a ideia de que esse racismo não se enraizou nas entranhas da sociedade brasileira apenas por um “educado ideológico” violento e em razão de uma trama estatal, econômica e religiosa -para que esse racismo descesse e se conformasse como um pilar central nas identidades, nas relações cotidianas e nas estruturas sociais no Brasil, foi preciso que ele tivesse ampla visibilização, ganhasse as arenas públicas, em uma educação permanente para o racismo. Até lá!

 

REFERÊNCIAS

Bosi, A. (1996). Dialética da colonização. 3ª edição. São Paulo: Cia. das Letras.

Costa e Silva, A. da. (2011). População e sociedade. In: Costa e Silva, A. da. (Coord.) Crise Colonial e Independência 1808-1830. Vol. 1. Rio de Janeiro: Objetiva, p. 35-74.

Chalhoub, S. (2012). População e sociedade. In: Carvalho, J. Murilo de. A Construção Nacional 1830-1889. Vol. 2. Rio de Janeiro: Objetiva, p. 37-82.

Fausto, B. (2006). História do Brasil. 12ª ed. São Paulo: Edusp.

Ribeiro, D. (1995). O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. 2ª ed. São Paulo: Cia das Letras. 
Koutsoukos, S. S. M. (2006). No estúdio do fotógrafo: representação e auto-representação de negros livres, forros e escravos no Brasil da segunda metade do século XIX. Campinas/SP: Unicamp.

 

A SEQUÊNCIA DOS TEXTOS SOBRE ESSSA TEMÁTICA: 

1 - A fabulação do Outro: herança colonial e a construção das identidades no Brasil.

2 - As identidades e a ideia do Outro: da separação imaginária aos muros reais.

3 - A trajetória manipulada das identidades: da imagem deformada ao controle do Outro

4 - As fantasias da nação e da pátria: ou das formas concretas de nos separar.

5 - A invasão do Novo Mundo: o projeto mercantil-religioso de abuso e apagamento do Outro.

6 - Racismo, a marca visível de colonialidade: uma discussão identitária sobre as raízes do Brasil.

7 - E o paraíso já tinha dono! A partida e a chegada ao Novo Mundo na construção das identidades. 

8 - O sangue indígena banhou o Novo Mundo: a extrema violência é uma de nossas marcas identitárias. 

9 - O amansamento pela cruz: como a pedagogia da inversão é decisiva para as identidades do Brasil. 

10 - O nascimento da "ninguendade."

11 - Escravização negra no Brasil: como o racismo se tornou instituição nacional.

 

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Cristian Góes

Jornalista. Doutor em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com doutorado sanduíche na Universidade do Minho, em Portugal. É mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). Especialista em Gestão Pública (FGV) e em Comunicação da Gestão de Crise (Gama Filho). É membro da Comissão Nacional de Ética dos Jornalistas Brasileiros e professor voluntário de Jornalismo na UFS. (cristiangoes_brasil@yahoo.com.br)