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As identidades e a ideia do Outro

12/02/2019 Cristian Góes Raízes Culturais

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Foto:  M. Clevenger

Nosso tempo é marcado pelo uso quase irrefletido das palavras, um dos sintomas das relações líquidas contemporâneas, como bem refletiu Zygmunt Bauman (2007). Sem se aperceber, retorcemos de tal modo as palavras, engolimos e as vomitamos tão rapidamente, que as empobrecemos e sufocamos e matamos seus infinitos sentidos. A violência é tanta que algumas até desaparecem, como solidariedade, fraternidade e comunhão. Muitas palavras passam por nós sem aderência significativa. O uso é econômico e pontual. E não é raro torturá-las para que digam somente o que nos convém.

É claro que isso não ocorre ao sabor do vento, como uma ação natural. Não é assim. As palavras são objetos de duríssimas disputas de poder: quem pode, fala! Tudo isso porque a palavra é ação que cria e recria, que faz ver e não ver, que faz unir e faz separar, que faz nascer e faz morrer. A palavra faz! Um exemplo de expressão submetida a um jogo de forças para conformar sentidos é a “identidade”. É sobre ela que inicio esse percurso narrativo em busca de pensar, com você, a construção do Outro, especialmente, no Brasil.

O fato é que o encontro com o Outro impõe mergulhar nas identidades, que não são uma simplória identificação à condição externa daquele ou daquela que enxergo diante mim. As identidades têm raízes mais profundas, que remetem ao reconhecimento do Outro em Mim, à constância do pertencimento de uma unidade. As identidades são infinitamente mais entranhadas do que uma mera identificação. Em outras palavras, o sentido de identidade revela a existência enraizada do Nós, que nos constitui como o Mesmo. Assim, não há diferença humana entre o Eu e o Outro

A disputa em torno das identidades

Entretanto, como disse, as palavras são objeto de disputas, e a identidade foi envolvida em uma trama política que arruína seu sentido de unidade, que nos divide e que concretiza a figura imaginária do Outro. A lógica majoritária do emprego das identidades criou uma descomunal e ilusória oposição entre Eu Ele, entre Nós Eles. Não é apenas a separação hierárquica ao pronunciar o Outro, colocando-me acima, mas uma ação de poder que o fabulou como a Diferença intransponível para Mim e para Nós. Na prática, a identidade transformou-se em uma violência que arrancou o Outro de Mim e aprisionou o Ele fora e apartado do Nós.

O resultado das disputas em torno das identidades não foi apenas o não reconhecimento do Outro como Eu, mas o desenvolvimento de uma luta permanente que silencia, apaga e elimina toda a Diferença que está Entre Nós e que aceito em Mim. Isso somente é possível porque as identidades são tecidas politicamente, formando um emaranhado de fios de sentidos que deforma as relações humanas. Curioso é que será a existência fabular do Outro a condição que vai definir e delimitar quem sou Eu e quem somos Nós. No fundo, queiramos ou não, esse Outro, contra quem mantenho uma feroz e permanente luta, é vital para o Eu e para Nós.

Independentemente da obrigatoriedade do Outro para me revelar, é Ele que me faz existir, parte de movimentos identitários, antigos e contemporâneos, que são um mecanismo de violência que nos desumaniza ao criar os de fora, os exóticos, os estrangeiros, as diferenças, o que não nos pertence. Ocorre que a realidade se impõe e esse Outro que sou Eu e é Você partilhamos a Casa Comum, o mesmo lugar da existência. 

Chamo atenção para o fato de que a comunicação social, e tomo aqui a ótica do jornalismo, dispara uma série de associações identitárias cotidianas para que o Outro fique à mostra como essa diferença indiscutível do Eu e do Nós. Essa condição se realiza porque o jornalismo é uma das experiências narrativas do mundo e um dos construtores de um regime de visibilização social. As vinculações identitárias apresentadas pelo jornalismo não são pontuais, ao contrário, elas são reiteradas para produzir uma consistência de sentido de pertencimento e de diferenças. Adiante voltaremos a isso.

O que são as identidades?

Interessa agora definir as identidades, que quase sempre vou grafar no plural como um indicativo de uma posição teórica que entende que elas são muitas, plurais e instáveis. Esse é um primeiro aspecto: não há apenas uma identidade. Outro ponto relevante é que refletir sobre as diversas identidades exige enxergá-las entrelaçadas à cultura, política e história. E, para completar esse quadro, as identidades também se constituem, como vimos, em um ambiente entrecortado por inúmeras teias de disputas de sentidos e de emaranhados de significações. 

Assim, é preciso reconhecer a complexidade conceitual das identidades, sendo infrutífera a busca por uma definição total e explicativa sobre elas. Essas condições nos levam a entendê-las como fenômenos em contínua rasura, em movimento, o que impede afirmações conclusivas ou julgamentos seguros sobre as identidades, conforme destacou Stuart Hall (2006). Não temos aqui um conceito dado e definitivo, mas uma experiência de contínuo atravessar. Esse modo de enxergar as identidades vem dos Estudos Culturais. 

Claro que existem diversas formulações sobre as identidades, seja no campo da Psicologia, Educação, Antropologia, Estética, Linguagem ou Direito. Em nosso percurso nesse trabalho, vamos investigá-las por meio da Cultura, especificamente dos Estudos Culturais, agregando outras contribuições da Sociologia, História e Comunicação.

Os Estudos Culturais, gestados no Centre for Contemporary Cultural Studies (Universidade de Birminghan) a partir de 1964, são um ambiente fecundo para isso porque as identidades, neles, navegam com fluidez. Também para esses estudos, a cultura não é algo rígido, monolítico, mas um fenômeno que emerge em contínua construção, uma experiência viva que está nas relações de forças sociais em tensão constante, que envolve tradição e ruptura. A escolha pelos Estudos Culturais para tratar das identidades e do Outro ainda se justifica porque eles trazem densas reflexões sobre nacionalismo, pós-colonialismo e multiculturalismo.

As identidades e o Outro

Em rápida incursão etimológica, nota-se que a identidade vem do grego idem e que, na versão latina, ganhou a expressão identitas, que significa o mesmoa permanência em sia constância em si o idêntico a si. Ocorre que essa identidade de si mesmo somente passou a ser compreendida assim na relação com o Outro, com a diferença do Eu e do Nós. Esse Outro já existia enquanto uma diferença, mas é com as identidades, com a ação político-narrativa - as palavras em disputa - que Ele surgirá com visibilidade, com corpo e alma, uma presença incontestável do eterno inimigo a ser vencido.

Mas, quem é esse Outro que difere do Eu? Onde Ele começa e termina? Quais são e onde estão as fronteiras entre nós? Na coletividade, quem somos Nós e quem são os Outros? Adiante, ao tratamos das identidades no Brasil, pensar nas respostas a essas questões será crucial. Por enquanto, ressalto a ideia central sobre as identidades a partir dos Estudos Culturais: elas não são um fenômeno natural, não são um carimbo eterno na alma dos sujeitos, mas construções sociais sempre inacabadas, instáveis, a “celebração do móvel”, como disse Hall (2006, p. 13). E não é apenas isso; não estamos tratando de uma ilusão como se fosse uma mágica. As identidades, segundo Manuel Castells (2001, p. 28), são “fonte de sentido e experiência para as pessoas”. 

É preciso deixar bem claro que essa noção de que as identidades são um fluxo, processo, rasura é uma construção contemporânea, apenas datada do final do século XX e início do XXI; é desses tempos pós-modernos. Antes disso, essa mirada que as percebem transitórias praticamente não existia, muito pelo contrário. As identidades eram naturais, fixas, eternas, divinas. Elas nascem na Era Moderna para dar concretude ao Outro. Curioso é que séculos e séculos depois, as velhas identidades ainda insistem em povoar nossas mentes e justificar desde o levantamento de muros entre Nós até a eliminação sumária do Outro.

No próximo texto, trataremos disso – o percurso histórico da criação das identidades que buscou configuração à diferença eterna. Até lá.

 

Referências 

Bauman, Z. (2007). Vida líquida. Rio de Janeiro: Zahar. 

Castells, M. (2001). O poder da identidade: a era da informação – economia, sociedade e cultura. 3ª ed. São Paulo: Paz e Terra. 

Hall, S. (2006). A identidade cultural na pós-modernidade. 11ª ed. Rio de Janeiro: DP&A. 

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Cristian Góes

Jornalista. Doutor em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com doutorado sanduíche na Universidade do Minho, em Portugal. É mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). Especialista em Gestão Pública (FGV) e em Comunicação da Gestão de Crise (Gama Filho). É membro da Comissão Nacional de Ética dos Jornalistas Brasileiros e professor voluntário de Jornalismo na UFS (cristiangoes_brasil@yahoo.com.br).