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A fabulação do "Outro": Herança colonial e a construção das identidades no Brasil.

31/01/2019 Cristian Góes Raízes Culturais

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©  Cartão de Visita - O senhor e seus escravos em São Paulo, 1879/  Acervo Museu Paulista. Ateliê fotográfico de Militão A. de Azevedo 

Com grande alegria, inicia-se aqui um percurso narrativo ousado e que objetiva pensar quem é o Outro. Poderíamos dizer que o Outro é aquele e aquela que não sou Eu? O que está fora de mim, então, é o Outro? Seria Ele o que não pertence a Nós? Será mesmo? Se for assim, o inverso também é verdadeiro? Eu sou o Outro para aqueles e aquelas que me veem. O grupo ao qual não pertenço enxerga-me como o Outro. Para complicar: o Outro, essa diferença de mim, existe mesmo?

Como a escrita não é obra de individualidade, ao contrário do que se pensa, e jamais é uma totalidade, convido você - o que já é uma declaração de intimidade entre nós - para embarcar nessa proposta de busca pelo Outro. Logo de saída, deixo claro que minha abordagem desse assunto não é da Psicologia. No fundo, proponho um caminho que bebe em fontes dos Estudos Culturais, da Sociologia, da Filosofia, da História e da Comunicação, porém, sem nada de textos complexos e de teses profundas. Nada disso. 

Esclareço que grande parte de nossa narrativa está localizada no Brasil. É nesse país que vamos desenvolver, principalmente tomando-se por base a história, o caminho para pensar o Outro que somos e que não somos. Será necessário ir até as raízes mais longínquas, ao período colonial, desde o século XV. Essa é uma reflexão identitária a jogar luzes sobre a construção da ideia do brasileiro e seu Outro. E sobre isso, veremos uma tensão permanente entre o reconhecer e o não reconhecer identitário do Outro, se é que Ele existe.

Pode-se até imaginar que essa é uma questão do passado, que nada tem com o presente, que as identidades não são preocupações atuais. Quem assim pensa está com dificuldade de enxergar a realidade. As identidades estão no topo da ordem ou da desordem mundial. Elas atravessam os países, os campos da política, economia, cultura, religião, educação, da vida na sociedade contemporânea. Assim, recorrer à história com um olhar crítico é fundamental para tentar compreender o hoje.

Lembro que o Brasil entrou no mapa do mundo como o lugar/destino para a máxima exploração das terras e das gentes. Essa origem é decisiva para entender as relações identitárias nos séculos seguintes. O fato é que surge uma nação composta por índios escravizados e alvos de genocídios; negros arrancados da África e moídos na barbárie escravista por mais de 300 anos; brancos investidos de civilização, de fé e da superioridade mais violenta e cruel; e mestiços pobres que apreenderam a relação de superior/inferior, cultivando o ódio racista e classista contra índios, negros e pobres.

Esse é um processo que ultrapassou o Brasil Colônia e se consolidou na República no início do século XX, porém, parece se estender às nossas relações contemporâneas, em um fenômeno nomeado por Aníbal Quijano (2009) de “colonialidade”. 

A imagem que ilustra esse texto é uma síntese desse processo. Ela é de 1879 e foi produzida no ateliê fotográfico de Militão de Azevedo, em São Paulo. É um cartão de visita em que o senhor, dono de escravos, à frente e no centro da imagem, ostentava seu poder, naturalizava a superioridade. Os negros, vestidos como gente, tinham os pés descalços para que não esquecessem sua condição de escravos. Os negros somente eram visíveis para confirmar o status da dominação, mas, ao mesmo tempo eram invisíveis as dores do desenraizamento em África, a mais sangrenta e vil selvageria escravagista, e as lutas de resistência e pela liberdade. 

Apresentei, até aqui, apenas uma pequena introdução para esse nosso percurso de descoberta do Outro, especialmente no Brasil. Informo ainda que esse e os demais textos que publicarei aqui pelos próximos meses sobre essa temática são resultados de uma parte de uma longa pesquisa realizada entre 2014 a 2017, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e que resultou em uma tese de doutorado aprovada e intitulada de “O jornalismo e a experiência do invisível: identidades, lusofonias e a visível herança colonial brasileira”.

Para finalizar, destaco, e com ênfase, que acolho com imenso prazer aos textos que publicarei os comentários críticos, de discordâncias, de apresentação de outros pontos de vista, e de outras colaborações. Escrever é dialogar. Nos próximos textos, antes de chegar à construção das identidades no Brasil, vamos tratar da fabricação identitária e da visibilização do Outro, uma parte mais conceitual que fundamentará nosso trajeto. 

Encerro com um pensamento do escritor moçambicano Mia Couto, retirado da obra "Raiz de Orvalho e Outros Poemas", de 1999, em que ele diz: “Preciso ser um outro para ser eu mesmo”. É isso. Até o próximo texto.

 

REFERÊNCIA

Quijano, Aníbal. (2009). Colonialidade do poder e classificação social. In: Sousa Santos, Boaventura de; Meneses, Maria Paula. Epistemologias do Sul. Coimbra: Almedina, p. 73-117.

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Cristian Góes

Jornalista. Doutor em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com doutorado sanduíche na Universidade do Minho, em Portugal. É mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). Especialista em Gestão Pública (FGV) e em Comunicação da Gestão de Crise (Gama Filho). É membro da Comissão Nacional de Ética dos Jornalistas Brasileiros e professor voluntário de Jornalismo na UFS (cristiangoes_brasil@yahoo.com.br).