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Brasil, um país multilíngue

07/11/2018 Rita Dorneles Raízes Culturais

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Segundo a SIL International de 2009, há quase 7 mil línguas faladas no mundo. Nossa linda e amada Língua Portuguesa faz parte deste acervo e o Brasil, isoladamente, tem 215 milhões de falantes, os quais, somados aos falantes de português dos outros países que têm a Língua Portuguesa como oficial, torna-a a quinta língua mais falada do mundo. 

Em sua página sobre os Povos Indígenas Brasileiros (PIB), o Instituto Socioambiental (ISA) diz que no Brasil há mais de 150 línguas e dialetos sendo falados por povos indígenas e que muitos destes povos são bilíngues ou multilíngues, tendo como língua materna sua língua indígena. Os índios brasileiros têm o direito à educação bilíngue assegurada pela Constituição de 1988. Isso, na prática, acaba com o mito do monolinguismo no Brasil.  

A universidade de São Paulo (USP) oferece um curso da língua geral Nheengatu com a intenção de não a deixar morrer. Esta é uma das primeiras línguas brasileiras, partilhada pelos colonizadores e povos indígenas e foi proibida pelo Marquês de Pombal ainda durante o período colonial. Mesmo assim, o Nheengatu continua sendo falado ainda hoje por populações indígenas na região da Amazônia e serve como língua franca entre diversos povos indígenas. Desde o início da colonização, várias línguas gerais se desenvolveram, sendo o Nheengatu apenas uma delas.   

O que teria acontecido com o Brasil se o Marquês de Pombal não tivesse proibido o uso das línguas gerais? Talvez hoje nós fossemos bilíngues ou multilíngues. Talvez nunca tivéssemos aprendido o português e só utilizássemos línguas criadas a partir do contato dos índios com os europeus ou mesmo línguas indígenas. Nunca saberemos! O que sabemos é que, em território brasileiro, há pessoas que falam português e pessoas que falam outras línguas e algumas destas não sabem português. Ou seja, no Brasil, falam-se várias línguas além do Português, sim, e nem todas estas outras línguas são indígenas. Nas colônias de imigrantes europeias, por exemplo, italiano, alemão, ucraniano e holandês continuam sendo cultivados.

Sonia Palma é uma professora de línguas que lecionou português no Xingu. Durante o tempo em que esteve lá, percebeu e vivenciou a diversidade linguística inerente ao universo indígena.  

Segundo ela, em sua sala de aula havia muitos indígenas que não eram capazes de se comunicar entre si por não falarem a mesma língua e outros que usavam uma terceira língua para a comunicação mútua. Sonia e outros professores estavam lá para ensinar português aos índios que seriam responsáveis por ensiná-la em suas aldeias. Os indígenas que frequentavam suas aulas e de seus colegas de trabalho tinham conhecimento da Língua Portuguesa, embora não a dominassem - tal como alguns alunos de Português como Língua de Herança (POLH) - mas eram capazes de acompanhar as aulas e aprender mais do que já sabiam, acumulando mais conhecimento linguístico para levar a suas aldeias. 

Estas informações nos levam a reflexões acerca da herança e riqueza linguística dos povos indígenas brasileiros, assim como da importância de reconhecermos e valorizarmos os demais idiomas preservados e falados no Brasil.  

Sabemos que, na tentativa de preservar e expandir o uso do Nheengatu - a língua geral da Amazônia -, jovens indígenas gravaram vídeos para o YouTube e os divulgaram, acrescidos de comentários escritos. 

Há também muitos livros infantis com contos indígenas que podem promover a aproximação entre o mundo indígena e as outras partes do Brasil. Não me refiro às lendas da Vitória-régia ou Yara somente, mas a outros contos e histórias bem interessantes, cheios de aventuras nas matas, que compõem um acervo de grande valor cultural e ótima fonte para elaboração de atividades educacionais.

© Foto Fernanda Krüger

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Rita Dorneles

Carioca de origem luso-brasileira, vive na Europa há 13 anos. Com formação em Pedagogia, já foi professora de POLH na Inglaterra e, atualmente, dá aulas na escola Raízes em Genebra.