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PAPAI NOEL MOTOQUEIRO

05/12/2020 Fernanda Krüger Textos contemporâneos

 

Papai Noel motoqueiro.  Arte: C. Krüger.

Parece prosa duvidosa de pescador, mas o que eu vou contar é verdade verdadeira: Papai Noel anda de moto, entra em casa pela porta da frente, e não pela chaminé da sala, e, de dentro do saco vermelho, retira muita coisa – exceto brinquedos.

A figura icônica do Papai Noel dos livros e filmes – em um trenó puxado por renas, descendo pelas chaminés e deixando presentes para as crianças – se desfez, como neve que derrete no calor, durante uma singela comemoração natalina. E tudo começou com uma inocente mudança de planos para as curtas férias de inverno, há alguns bons anos...

Nas últimas décadas, Natal e Réveillon haviam sido sinônimo de longas viagens para visitar os familiares – ora para rever meus pais, ora para rever meus sogros. Naquele ano, no entanto, tínhamos feito uma mudança grande e decidimos ficar quietinhos em casa e passar as festas de fim de ano sem o frenesi dos aeroportos ou das rodovias.

As tradições natalinas se iniciaram no dia 1° de dezembro, e fizemos como em todos os anos – decoramos a casa com as peças guardadas no porão, lemos livros juntos, preparamos dezenas de bolachinhas, escrevemos e enviamos cartões, etc. e tal. Nada de tão diferente assim, até que decidimos encomendar a ceia natalina em um restaurante, que fazia entregas em domicílio. 

Era dia 24 de dezembro. A campainha toca e eu peço às crianças que atendam a porta. De repente, ouço berros, "Manhêêêêêê, o Papai Noel tá aqui e veio de motoca. Ele veio de motoca! De motoca!".

E, para minha surpresa, tinha ido mesmo! De barba branca, gorro, roupa vermelha, cinto e botas. Na caixa-saco, trazia a nossa desejada ceia: ganso recheado, batatas assadas, castanhas cozidas, repolho roxo, mousse de maçã; de sobremesa, torta de chocolate.

Enquanto o ilustre entregador me ajudava a descarregar os embrulhos sobre a mesa, a caçulinha da casa dividia seus olhares entre a lareira da sala e o bondoso velhinho que trazia comida, mas nenhum brinquedo. Entrega finalizada, ele deixa um chocolate para cada criança, deseja boas festas e sai pela mesma porta de entrada.

Debruçada na janela da cozinha, que dava para a rua, a caçulinha nem pestaneja, assistindo ao personagem natalino, tão famoso quanto o Menino Jesus, acomodar a caixa-saco na garupa da motocicleta, acelerar e ir embora. De repente, ela diz assim, "Eu sabia que rena voadora não existia! Papai Noel vem é de moto, mãe! De moto!".

Pois é... Quem sou eu para dizer que não... 

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Fernanda Krüger

Idealizadora e fundadora do br+ Foco no lado positivo do Brasil!© e da iniciativa pioneira BRmais e o Português como Língua de Herança no Ensino Globalizado©. É também cofundadora do programa de leitura em língua portuguesa Encontros de Leitura/ Portugiesischer Vorlesetreff, na Biblioteca Infantojuvenil de Frankfurt e criadora do selo editorial Papagaios pelo Mundo.