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O FUTURO À ESPREITA

17/04/2020 Fernanda Krüger Textos contemporâneos

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Capa do livro "Depois da Quarentena - Antologia Futura de um Presente Confinado".  Arte: Ivo Minkovicius. 

 

Duas mulheres passaram pela minha vida, deixando, para sempre, um pedaço de si no todo que eu sou.

A mulher que nasceu no século 19 viveu tanto – 106 anos! – que entendeu o momento exato de partir. Reuniu, ao pé da cama, quem vivia mais próximo dela, pediu por uma oração e se foi. 

A mulher que nasceu no século seguinte, de uma forma diferente, soube também. Mas, essa, o destino me permitiu abraçar, desconfiada de sua partida. Foram abraços longos e repetidos, e me fui, planejando voltar em breve. Não voltei.

Dessas duas mulheres – tão vivas dentro de mim – eu não consegui me despedir de perto, quando elas não puderam mais estar aqui.

A bivó se foi quando eu tinha me tornado mãe de gêmeas. Recebi a notícia por telefone e, quando meu choro ficou insistente, insisti em me dizer que uma vida se ia, feliz de sua passagem por aqui. Outras duas haviam chegado e dependiam de mim para serem felizes.

A vó paterna se foi quando eu já tinha três crianças e havia me mudado, mais uma vez, para um novo país. Quase cheguei a tempo para o velório, mas equilibrar a logística viagem/família me permitiu estar presente apenas na missa de sétimo dia. Durante aquela semana que nunca chegava ao fim, eu me agarrei a infindáveis boas lembranças para lutar contra o choro e a irresignação.

Pois é... viver tem desses dias lúgubres, não tem jeito. É preciso um esforço sobre-humano para, com se diz lá pelas bandas de Minas, dar conta deles.

De todas as liberdades que a situação atual nos confiscou – e são inúmeras e de toda sorte –, o direito aos rituais de despedida me parece, de longe, o mais cruel. Sinto que a nossa passagem por aqui se torna muito mais insignificante do que já é. Independentemente das causas e das crenças de celebração da morte, o direito de dizer adeus deveria ser divinamente garantido, inalienável. Mas não é.

Passamos por um momento estranhamente novo. Muitas dúvidas e quase nenhuma certeza. Mas uma coisa eu aprendi antes do caos: a dor imposta pela repentina subtração do direito à despedida é, talvez, maior do que a dor da própria perda. 

Tempos desconcertantes, estes. Sujeita às exigências do momento, vivo uma rotina de contra-ofensiva. Enquanto cumpro o papel cidadão que me cabe por ora, assisto às manifestações da essência humana, escancarando, em cada canto do mundo, as suas melhores e piores facetas. 

Tempos desconcerantes, os que virão. Desconhecendo a ordem do universo, apenas suponho o dia de amanhã. Na voz sábia dessas duas mulheres – ainda tão vivas dentro de mim –  busco uma explicação. 

Certamente, me diriam que há dores e perdas inevitáveis. Insistiriam para que eu jamais agisse apenas em meu proveito, caso eu tivesse que refundar o futuro à espreita. 

Quem sabe os meus passos nesta direção, aliados a tantos outros, façam restar  apenas vestígios do que fomos e do mal feito, mesmo sem querer. Quem sabe, com a natureza acalmada, desabroche o entusiasmo por uma jornada nova. Quem sabe as limitações impostas, as fragilidades expostas, a interdição do adeus para sempre, a solidariedade de alguns muitos e a barbaridade de alguns outros sirvam para alguma coisa. Quem sabe!

Não banalizo o futuro próximo, nem me deixo iludir por ele. Apenas o queria mais humanizado – cá, do meu canto, sigo nesta direção. Seguramente, essas duas mulheres também me diriam que isso, sim, faria a minha existência valer a pena, ainda que eu não sobreviva ao tempo ansiado por mim. 

Temo que o mundo, no entanto, prossiga sucumbido à prevalência da egolatria de seus zeladores, abandonando, assim, a brecha de ouro para se inaugurar uma era enfim humanizada. 

Resta-me navegar contrária às próprias previsões de que seremos os mesmos depois da quarentena. 

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Direitos de reprodução do texto cedidos à autora. 

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Fernanda Krüger

Idealizadora e fundadora do br+ Foco no lado positivo do Brasil!© e da iniciativa pioneira BRmais e o Português como Língua de Herança no Ensino Globalizado©. É também cofundadora do programa de leitura em língua portuguesa Encontros de Leitura/ Portugiesischer Vorlesetreff, na Biblioteca Infantojuvenil de Frankfurt e criadora do selo editorial Papagaios pelo Mundo.