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Migração, Aculturação, Identidade Cultural, Bilinguismo, Educação Bilíngue e Políticas Linguísticas

23/03/2016 Fernanda Krüger POLH/PLH

Reprodução de uma página da Bíblia de Gutenberg, 1452-1455.  Impressão tipográfica na gráfica do Museu Gutenberg, em Mainz. Ornamentos acrescentados manualmente.  (Fonte: Fernanda Krüger).

 

O que está por trás da história linguística de um povo? O que leva um idioma a se tornar a língua oficial de um país? O que pode influenciar o  avanço de políticas linguísticas e de programas de apoio ao ensino bilíngue?

Aqui, algumas observações sobre a história da educação bilíngue – prática e política linguística – na Alemanha. 

Difícil escolher por onde começar. Pelo modelo de sociedade do passado? Pela tradução da Bíblia por Lutero? Pelos efeitos do pós-guerra – imigração e emigração – na aquisição e manutenção de idiomas? Pela atual crise imigratória e os inúmeros projetos postos em marcha a fim de promover a integração dos refugiados por intermédio do idioma alemão? Pelo uso da língua materna nas comunidades turcas? Pelo mundo globalizado e o crescente interesse por escolas bilíngues no país? Pelos programas educacionais visando à preservação dos dialetos (dialeto + alemão oficial)? Pelas iniciativas espalhadas pelo país em prol da manutenção e ensino da língua portuguesa?

Há pouco mais de um século, a Alemanha não existia tal como hoje: um só país composto por 16 estados, tendo o alemão clássico como língua oficial. Existiam várias tribos e várias línguas nativas regionais (dialetos). Sua unificação como Estado-nação é consequência da Guerra Franco-Prussiana (1871). Bem antes disso, no entanto, os dialetos alemães já haviam sofrido várias interferências sobretudo em razão das colonizações e migrações. E, mais tarde (século XVI), o monge e teólogo Lutero traduziria a Bíblia para o alemão, usando um dialeto que serviu de alicerce para o alemão padrão moderno, disseminando e popularizando a forma escrita da língua.

Atualmente, a crise imigratória na Alemanha tem gerado calorosos debates a respeito dos programas de integração oferecidos aos estrangeiros.

Claro, uma questão considerável a ser tratada é o ensino do idioma alemão. Parte-se do princípio de que, sem o domínio da língua dominante, não há como trabalhar ou estudar, e isso pode gerar uma situação babélica na sociedade.

Exatamente essa preocupação tem levado ao surgimento de inúmeras inciativas privadas, comunitárias e governamentais para oferecer o ensino da língua alemã. 

Contudo, mais um fenômeno linguístico se revela. Muitos imigrantes chegam à Alemanha com um certo nível de proficiência na língua inglesa. Como a necessidade de trabalhar e estudar é enorme, muitas pessoas oferecem ajuda e livros em inglês, até que seja possível a comunicação em alemão.

Também tem sido progressiva a busca por indivíduos bilíngues (árabe-alemão) para prestar auxílio aos refugiados. Nessa linha de integração por meio do idioma e da cultura, destaca-se o trabalho de Constantin Schreiber. 

Jornalista alemão, C. Schreiber, que viveu em países árabes, é fluente em árabe e conhecedor da cultura árabe. Há alguns meses, ele começou a apresentar semanalmente o programa de TV bilíngue Marhaba: Ankommen in Deutschland.

Seu objetivo é dar boas-vindas aos refugiados e facilitar a adaptação. Para isso, divulga em árabe e alemão particularidades da cultura alemã, a fim de permitir uma comunicação intercultural/transcultural mais fluida.

Há opiniões polêmicas e bastante controversas em relação ao seu trabalho – aqui, um vídeo, no YouTube, para dar ideia do que se trata. 

Na Alemanha, existem várias escolas que oferecem educação bilíngue (português-alemão).  Porém, várias são as interpretações e classificações acerca do que seja ensino bilíngue. 

O critério para classificar a escola nesta categoria é, hoje, o de que algumas matérias sejam ensinadas em um idioma estrangeiro.

Diante disso, os estados vêm tentando recuperar o atraso na formulação de conceitos que promovam o ensino bilíngue nas creches e nas escolas, pois apenas definições claras darão às crianças o acesso ao seu direito ao multilinguismo. A União Europeia exige que todas as crianças absorvam a língua materna/língua de herança e atinjam boa proficiência em dois idiomas estrangeiros.

Muito a ser pensado, discutido, conquistado e colocado em prática.

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Fernanda Krüger

Fundadora do br+ Foco no lado positivo do Brasil!© e Idealizadora da iniciativa pioneira BRmais e o Português como Língua de Herança no Ensino Globalizado©