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CINEASTAS & FILMES DA PRIMEIRA FASE DO CINEMA NOVO

31/10/2020 Eveline de Abreu Cinema

As peculiaridades, os diretores e os filmes do momento inaugural do movimento cinemanovista para assistir e se deliciar quantas vezes quiser e bem entender

Ledo engano de quem pensava que o Cinema Novo é coisa unívoca. Ao contrário, ele constituiu uma tríade, abrigando temas, estéticas e obras bem demarcadas não só pelos humores da indústria cinematográfica e do mercado distribuidor, mas especialmente pelas circunstâncias político-sociais. Assim é que cada fase do movimento retratou/retratava em seus filmes um ideário sempre orientado pelo leitmotiv de um cinema que fosse – e mostrasse – a nossa cara.

Nos anos 60, a democracia foi nocauteada por um golpe-baixo, que terminou por instaurar o regime militar. E o Cinema Novo não passou incólume pela ditadura, nem dela pode ser descolado: à medida que punha em evidência as discrepâncias nacionais, só podia mesmo ser perseguido pela sanha da censura. Até então, ele granjeou a simpatia dos setores vanguardistas da indústria nacional, e sua produção fílmica contava com financiamento de instituições bancárias, até o Brasil ser tomado de assalto no fatídico 31 de março de 1964.

Pode-se dizer que a ‘pré-estreia’ temática e estética do Cinema Novo data de 1955, com Rio 40 Graus, semidocumentário com roteiro e direção de Nelson Pereira dos Santos, que mostrava cinco meninos de favela vendendo amendoim, num tórrido domingo do verão carioca. A ideia de filme engajado e de pequeno orçamento terminou por fazer escola junto a outros realizadores. 

 

UMA CÂMERA NA MÃO, UM IDEIA NA CABEÇA

Não dá para falar em Cinema Novo e, ao mesmo tempo, passar ao largo do nome Glauber Pedro de Andrade Rocha. O polêmico ator, escritor e cineasta baiano foi um entusiasta dos mais criativos, senão o mais importante do movimento. Em sua copiosa obra, constam os escritos O Século do Cinema, Revisão Crítica do Cinema Brasileiro e Revolução do Cinema Novo, que continuam a dar o que falar e o que pensar no meio de estudiosos e observadores, tanto no Brasil como no exterior. 

 

Glauber Rocha, um marco do Cinema Novo - Domínio Público / Acervo Arquivo Nacional  (Foto: commons.wikimedia).

 

Catalogado como uma das obras-primas do cinema, o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) serviu de inspiração para que, dois anos depois, ele redigisse o célebre manifesto Eztetyka da Fome*. Presente nas três fases do Cinema Novo, Glauber assinou a direção de Terra em Transe, de 1967, O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, de 1969, e, finda a terceira e última, produziu Di, de 1977, e A Idade da Terra, de 1980. Todos igualmente ícones do cinema nacional e listados como dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos, pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (ABRACCINE).

Como bem disse Cacá Diegues, "os cineastas brasileiros, principalmente no Rio, na Bahia e em São Paulo, levaram suas câmeras e saíram para as ruas, o país e as praias em busca do povo brasileiro, o camponês, o trabalhador, o pescador, o morador das favelas".

De 1960 a 1964, as produções documentavam a alienação religiosa, a exploração, a fome e a violência perpetradas contra os deserdados sociais. A fase inaugural foi a mais iconoclasta do Cinema Novo: no lugar de estrelas e galãs, era a hora e a vez das periferias do Brasil, da gente de um Nordeste calcinado e seco, do povo desdentado e feio das favelas. 

Neste período – véspera da ditadura –, o Centro Popular de Cultura (CPC) lançou Cinco Vezes Favela, filme dividido em cinco histórias autônomas – Zé da Cachorra, Couro de Gato, Escola de Samba, Alegria de Viver e Pedreira de São Diogo –, com direção de Marcos Farias, Miguel Borges, Joaquim Pedro de Andrade, Cacá Diegues e Leon Hirszman, respectivamente. Uma grande parcela dos especialistas em cinema considera a obra uma das molas propulsoras do Cinema Novo.

 

“A voz do morro rasgou a tela do cinema

E começaram a se configurar

Visões das coisas grandes e pequenas

Que nos formaram e estão a nos formar”

– “Cinema Novo”, canção de Caetano Veloso e

      Gilberto Gil, do álbum Tropicália 2, 1993.

  

No entanto, a denominação Cinema Novo só ganhou notoriedade com o filme Os Cafajestes, do realizador luso-brasileiro Ruy Guerra, considerado a primeira obra cinematográfica de baixo custo da categoria a obter êxito de bilheteria.

 

PELÍCULAS E DIRETORES EMBLEMÁTICOS DA PRIMEIRA FASE

. 1960 – Arraial do Cabo, de Mário Carneiro e Paulo César Saraceni

. 1960 – Aruanda, de Linduarte Noronha

. 1961 – A Grande Feira, de Roberto Pires

. 1962 – Barravento, de Glauber Rocha

. 1962 – Cinco Vezes Favela, de Marcos Farias, Miguel Borges, Cacá Diegues, Joaquim Pedro de Andrade e Leon Hirszman 

. 1962 – Os Cafajestes, de Ruy Guerra

. 1963 – Ganga Zumba, de Cacá Diegues

. 1963 – Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos 

. 1964 – Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha

. 1964 – O Grito da Terra, de Olney São Paulo

. 1964 – Os Fuzis, de Ruy Guerra

 

A SEQUÊNCIA DOS TEXTOS SOBRE ESSA TEMÁTICA: 

1- O Cinema Novo do Brasil

 

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Apresentado durante as discussões sobre o Cinema Novo, na Resenha do Cinema Latino-Americano realizado em janeiro de 1965 (Gênova, Itália), dentro do tema Cinema Novo e Cinema Mundial. Disponível integralmente neste link.

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Eveline de Abreu

Publicitária e redatora. Descobriu a vocação para ensinar quando dirigia a assessoria de comunicação de um órgão público e precisou treinar e capacitar estudantes de jornalismo. Desde 2007 na Europa, adaptou esta experiência exitosa à versão digital e fundou a Incubadora de Escritores – serviço on-line de análise e parecer, apoio no desenvolvimento de textos, capacitação e revisão de conteúdo. A nostalgia do Brasil a levou a cozinhar e anotar receitas, na tentativa de compensar pela boca a saudade que lhe invadia o coração. O resultado tem sido a culinária natal, reinventada com produtos locais, e textos de dar água na boca.