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BRmais, a Identidade Brasileira e o Português como Língua de Herança no Ensino Globalizado

09/12/2020 Fernanda Krüger POLH/PLH

 

Pôster apresentando na Universidade de Pisa, durante o IV SEPOLH (2019). (Arte: F. Krüger). 

 

Artigo original aprovado para publicação no segundo volume do livro SEPOLH 

 

RESUMO

Este capítulo destaca o trabalho do br+ Foco no lado positivo do Brasil!© (BRmais) em prol do Português como Língua de Herança (doravante POLH). O BRmais é uma proposta dirigida a diferentes contextos socioculturais e variadas faixas etárias, cuja abordagem contempla o falante de línguas de herança como um ser integral, considerando o processo de formação de sua identidade multicultural e valorizando questões de afetividade e senso de pertencimento. A metodologia empregada se baseia em atividades que permitam o envolvimento das famílias e comunidades minoritárias, conectem profissionais e iniciativas com os mesmos objetivos e contribuam para a construção contínua de uma rede de valores refletida no sentimento de “ser brasileiro”, promovendo, ao mesmo tempo, o bilinguismo, a educação bilíngue e a constituição da identidade híbrida.

Palavras-chave: português como língua de herança, BRmais, identidade cultural brasileira, línguas pluricêntricas, ensino globalizado.

 

1. INTRODUÇÃO

De uma forma geral, o ensino de línguas de herança (doravante LH) segue ganhando mais espaço mundialmente. Em uma sociedade cada vez mais globalizada, as pessoas têm se mudado muito mais frequentemente de um lugar para o outro e, com isso, propiciado diversos canais para a transmissão de suas culturas às gerações futuras, por meio da preservação e ensino da língua de seus respectivos países de origem. Consequentemente, o interesse pelo estudo de idiomas, bilinguismo e educação bilíngue tem se multiplicado.

Cultivar e transmitir uma LH, no entanto, extrapola os limites do ensino convencional de um idioma. Este é um processo que, como na aprendizagem de uma língua materna, inicia- se no meio familiar e expande-se para ambientes socializadores e escolarizadores (cf. MANGUBHAI, 1977). Contudo, tem como grande diferencial os vínculos afetivos, a serem estabelecidos pelo falante da LH entre o idioma em si e as questões identitárias da cultura minoritária pertinente. Assim sendo, considerações sobre aspectos como processos de aculturação, senso de pertencimento e formação da identidade do sujeito multicultural não podem ser descartadas. Em outras palavras, o ensino de LH requer não apenas um planejamento linguístico familiar, políticas governamentais de apoio à educação bilíngue e um programa que atenda às necessidades pedagógicas e linguísticas, mas, sobretudo, exige certa atenção aos contextos migratórios e um foco nas raízes culturais e sociais dos países de origem das famílias de imigrantes (cf. LO BIANCO; PEYTON, 2013).

 

2. HISTÓRICO

Para discorrer sobre esta iniciativa em prol do POLH é necessário, primeiramente, esclarecer como surgiu a semente dessa ideia e expor sua filosofia e missão iniciais.

Originalmente, a proposta do br+ Foco no lado positivo do Brasil!© era a publicação de livros com muitas ilustrações e textos concisos sobre cidadania e cultura brasileira, direcionados ao público infantojuvenil. Esta iniciativa surgiu entre 2006 e 2007 por meio de um trabalho voluntário informal realizado com crianças carentes em uma cidade do interior de Minas Gerais. O foco da atividade era a disponibilização de material de leitura voltado a temas relacionados ao Brasil e ao estímulo de práticas cidadãs na comunidade local. Contudo, embora este projeto tenha sido desenvolvido, por vários motivos, os livrinhos nunca foram publicados, mas foi criado o site www.brmais.net - uma iniciativa privada e sem fins lucrativos de divulgação da cultura brasileira e de notícias positivas nas áreas de educação, saúde, meio ambiente, tecnologia e projetos sociais no Brasil.

Tempos depois, com base em minha experiência pessoal, esta iniciativa local começaria a tomar rumos globais. Integrante de uma família multicultural, vivendo constantes mudanças de um país para o outro, educando minhas filhas (trilíngues) fora do Brasil e fazendo parte de uma comunidade escolar internacional, comecei a usar o site como mais uma fonte de informações sobre o Brasil e a língua portuguesa, tanto para minha família quanto para outras pessoas eventualmente interessadas pelo tema.

Como em um processo natural em cadeia, a concepção original se expandiria mais uma vez. Uma palestra na escola em que minhas filhas estudavam sobre os benefícios do bilinguismo, uma unidade curricular exclusivamente sobre o Brasil na Upper School e uma notícia sobre o ensino e manutenção da língua portuguesa no exterior postada no site, conduziram-me a um novo estágio da proposta incial do br+ Foco no lado positivo do Brasil!©: criar um projeto em prol do POLH!

Sucede, então, a proposta BRmais e o Português como Língua de Herança no Ensino Globalizado©, cujo objetivo central é unir a filosofia e conteúdo do br+ Foco no lado positivo do Brasil!© à filosofia do POLH e desenvolver, em parceria com profissionais da área de educação e afins, atividades didáticas voltadas às necessidades específicas do ensino da língua portuguesa no contexto de língua de herança ao redor do mundo.

 

3. DADOS CONTEXTUAIS – PASSADO E PRESENTE

 

3.1. O Brasil e o seu contexto migratório

Por volta das décadas de 80 e 90, o Brasil deixa de ser predominantemente um país de fluxos imigratórios e migratórios internos e passa a ser um país com acentuado movimento emigratório.

Sucessivas crises político-econômicas internas, o crescente processo de globalização e a facilitação dos deslocamentos no mundo contemporâneo constituem o cenário ideal para esta transição. Diante disso, emigrantes brasileiros começam a se fixar em diferentes partes do mundo. O estabelecimento destes indivíduos em terras estrangeiras implica, no entanto, um período de aculturação – processo longo, envolvendo diferentes facetas e estágios e diretamente ligado ao contexto migratório e às vivências e costumes nos países de acolhimento (cf. BERRY, 1997).

Tais fatores criam e consolidam o modo como a nova cultura será percebida e exercem também um papel determinante na forma como a identidade cultural de origem será mantida e transmitida – ou não – às gerações posteriores. A exposição direta e contínua de um indivíduo ou grupo a uma nova cultura determina, invariavelmente, novos comportamentos sociais, assim como influencia as questões relacionadas a aquisições idiomáticas. Por um lado, pode constituir-se em uma experiência traumática, com consequências negativas, que transitam entre a renegação da identidade cultural de origem, a repulsa aos costumes e língua locais e a perda total de identidade cultural, acarretando até mesmo o surgimento de graves transtornos psíquicos (cf. POLLOCK e REKEN, 2001). Por outro, pode converter-se em um campo riquíssimo para o desenvolvimento da diversidade cultural, pluralidade linguística e equidade nas sutis relações interculturais de poder. O indivíduo mantém sua própria identidade cultural,

mas consegue enriquecê-la com novos valores. Surge, assim, o cidadão global, um indivíduo híbrido, caracterizado por sua pluralidade cultural e idiomática. Sua identidade híbrida, entretanto, não se caracteriza por ser a soma integral de identidades originais, mas sim por guardar traços de cada uma delas (cf. SILVA, 1999).

Atualmente, o número de brasileiros vivendo no exterior é considerado o maior contingente já registrado. As apurações oficiais de instituições como Organização das Nações Unidas, Ministério das Relações Exteriores do Governo Brasileiro1 e Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística apresentam discrepâncias, mas, segundo uma estimativa elaborada pelo Ministério das Relações Exteriores, o ano de 2018 registrou cerca de 2,5 milhões de brasileiros fora do País.

Este panorama amplia as oportunidades de representatividade cultural e linguística do Brasil pelo mundo, nas suas mais variadas vertentes. Os movimentos de incentivo ao ensino do POLH e a promoção da educação bilíngue têm aqui o seu destaque.

 

3.2. O papel das famílias, a importância da criação de espaços para uso da LH e a necessidade de políticas linguísticas governamentais

Os contextos sociocultural e sociolinguístico das famílias exercem grande influência na transmissão da cultura de origem e da LH. Uma postura favorável por parte dos pais, assim como um planejamento linguístico familiar consciente e bem estruturado (cf. SOUZA, 2016) são a pedra fundamental para o sucesso deste longo processo. Contudo, apenas isso não garante a possibilidade de transformar o ensino da LH em uma dinâmica evolutiva e retroalimentável. É fundamental a criação de espaços para o uso da LH fora do âmbito familiar, assim como de políticas linguísticas governamentais de apoio ao ensino formal de LHs nas escolas. Somente a conexão, ampliação e continuidade destas ações poderão garantir a vitalização e a revitalização da língua portuguesa e da cultura brasileira no exterior, além de permitir estruturar e assegurar o processo de dupla alfabetização dentro das instituições de ensino.

 

3.3. O perfil das famílias e dos países ligados ao projeto

Por meio de dados obtidos com base nas informações fornecidas nas fichas de cadastramento, nota-se que o perfil e os contextos socioculturais e sociolinguísticos das famílias são bastante variados. Algumas famílias são constituídas por casais de uma mesma nacionalidade (ambos brasileiros) e outras por casais de dupla nacionalidade (apenas um é brasileiro). Interessantemente, verifica-se também a participação de famílias em que ambos os pais não são brasileiros, contudo, viveram no Brasil e desejam manter o vínculo com a cultura brasileira e a fluência adquirida por seus filhos na língua portuguesa durante este período.

Outro fato relevante e que pode ser observado nos diferentes grupos de atividades é a escolha do destino imigratório e o modelo de estabelecimento destas famílias em terras estrangeiras. Algumas migram para países sem nenhum vínculo linguístico-cultural com algum dos pais, já outras fixam residência no país de origem de um dos pais. Há ainda aquelas famílias que se deslocam frequentemente de um país para o outro. No caso dos participantes ligados ao projeto, as duas últimas opções são as mais frequentes, verificando-se também um maior número de casais de dupla nacionalidade.

As expectativas em relação ao bilinguismo também variam. Algumas famílias procuram apenas por um espaço para interação social e exposição à língua portuguesa e à cultura brasileira e seu envolvimento é mais percebido nas atividades direcionadas às crianças menores (0 a 8 anos). Já outras desejam um modelo de educação bilíngue mais amplo e estruturado, voltado à dupla alfabetização, direcionado às diferentes faixas etárias e oferecido dentro das escolas locais (como parte da grade curricular). Esta é uma tendência que vem crescendo.

As políticas linguísticas governamentais de apoio ao ensino de LHs são um ponto de extrema importância e variam de um lugar para outro. Nota-se que há países avançados neste setor, tendo um programa de sucesso já estabelecido e em funcionamento há vários anos, enquanto outros ainda encontram-se em fase de maior articulação entre comunidades, escolas e governo. Pode-se destacar aqui o exemplo de sucesso da Suécia. A Secretaria Estadual de Educação Sueca valoriza o multiculturalismo e a diversidade linguística do país, promovendo e incentivando um modelo de ensino que considera a multiplicidade cultural e linguística de seus alunos e professores. O programa curricular sueco defende o direito ao apoio escolar em LH de crianças do ensino básico e secundário, sendo este direito, assim como um programa com diretrizes pré-estabelecidas, previstos por um decreto-lei do regimento escolar.

Todas estas particularidades pressupõem múltiplas negociações do uso de línguas tanto em casa quanto na sociedade local e interferem no planejamento linguístico familiar (cf.SOUZA, 2010). Consequentemente, impactam de modo direto no sucesso do processo de formação do indivíduo multicultural e multilíngue. Entre os participantes do projeto, é claramente notável a variação nos níveis de proficiência oral e escrita na língua portuguesa e na segurança ao definirem suas identidades culturais (nacionalidades).

 

3.4 As bases metodológicas e o projeto didático-pedagógico

A abordagem metodológica busca oferecer meios para a criação de vínculos afetivos, senso de pertencimento e formação da identidade multicultural, proporcionando, assim, oportunidades de vitalização e revitalização da língua portuguesa e da cultura brasileira no exterior, de acordo com o modelo Capacidade-Oportunidade-Desejo (COD). Segundo Lo Bianco & Peyton (2013) a vitalidade de uma língua depende simultaneamente de três condições: o ensino e a aprendizagem da língua (Capacidade); a criação de situações reais para o uso genuíno da língua (Oportunidade); e o estímulo a uma motivação individual e coletiva para o seu uso de forma ativa (Desejo). Em outras palavras, manter uma língua viva depende de como ela será cultivada em cada momento do seu desenvolvimento. Em resumo, capacidade, oportunidade e desejo são os três parâmetros fundamentais para o sucesso da aquisição da LH: (cf. LO BIANCO; PEYTON, 2013).

Considerando-se que os falantes do POLH crescerão distantes do país de origem de seus ascendentes e, ao mesmo tempo, estarão imersos em outra cultura e idioma dominantes, a questão que se coloca é como contribuir para a formação de laços identitários com a cultura minoritária e oferecer condições para o desenvolvimento da proficiência na LH, valorizando também o idioma e a cultura locais? Promover atividades e espaços para vivências individuais e coletivas desta língua-cultura minoritária e disponibilizar práticas pedagógicas que permitam trabalhar a cultura brasileira nos seus mais diferentes eixos e contextos, focando nas necessidades de cada faixa etária e fomentando o apoio aos processos de alfabetização bilíngue, são soluções possíveis e coerentes. Também é oportuno tratar a língua portuguesa como uma língua pluricêntrica (cf CLYNE, 1992).

A proposta do BRmais reconhece e considera todas estas especificidades e oferece um programa direcionado a diferentes contextos socioculturais, faixas etárias e necessidades pedagógicas.

 

4. ATUAÇÃO NA PRÁTICA

A fim de atender às variadas necessidades das famílias, abranger diferentes modalidades de ensino, contribuir para a formação da identidade do indivíduo multilíngue e multicultural e divulgar a cultura brasileira no exterior, a proposta do BRmais em prol do POLH atua por meio das seguintes abordagens: disponibilização de material on-line; manutenção de um programa mensal de leitura na biblioteca local; manutenção do programa “Papagaios pelo Mundo®” e realização de atividades em parceria com escolas.

 

4.1 Material on-line

A plataforma www.brmais.net 2 é uma iniciativa que se propõe a resgatar, atualizar e expandir a identidade cultural brasileira. Ela encontra-se on-line, oferecendo um conteúdo permanente sobre a história e a identidade cultural brasileiras nas áreas de arte, literatura, música, flora, fauna, folclore, celebrações, culturas indígena e afro-brasileira e destaques nacionais, publicando periodicamente informações e notícias de impacto positivo relacionadas ao Brasil (blog), divulgando eventos e atividades que têm a cultura brasileira como tema e promovendo o programa de apoio ao ensino do POLH Papagaios pelo Mundo®. Visa, com isso, colaborar para a construção contínua de uma rede de valores refletida no sentimento de “ser brasileiro”, bem como fornecer material informativo para um público amplo e servir como fonte de consulta para elaboração de atividades pedagógicas.

 

4.2 Programa mensal de leitura na biblioteca local

O Encontros de Leitura/ Portugiesischer Vorlesetreff 3 é uma iniciativa conduzida por uma brasileira e uma portuguesa e apoiada pela Biblioteca Infantojuvenil de Frankfurt (KiBi- Frankfurt). Por meio de encontros mensais aos sábados, oferece leitura e contação de histórias, aliadas a atividades lúdicas, para um grupo de crianças de 4 a 8 anos, acompanhadas de seus familiares. As leituras são realizadas em português do Brasil e Portugal. Obras escritas em língua portuguesa e traduzidas para o alemão também estão no programa, visando a estimular o ensino bilíngue. A curadoria dos livros privilegia os autores e ilustradores lusófonos, com o intuito de promover no exterior a literatura infantojuvenil produzida nos países de língua portuguesa. Entre janeiro de 2017 e maio de 2018, já foram lidos 15 livros, com a participação média por encontro de 20 crianças e suas respectivas famílias.

 

4.3 Programa “Papagaios pelo Mundo®”

O “Papagaios pelo Mundo®” é um programa de auxílio ao ensino da língua portuguesa no exterior e fomento ao ensino bilíngue, bem como à formação da identidade cultural brasileira no contexto de Português como Língua de Herança e atua em três frentes: (4.3.1) Papagaio Fala, (4.3.2) Papagaio Escreve, e (4.3.3) Selo Editorial Papagaios pelo Mundo®.

 

(4.3.1) Papagaio Fala

Trata-se de um conjunto de atividades que visam à prática oral da línguaportuguesa realizada nos moldes de um “programa de rádio”. Congrega crianças e adolescentes entre 9 e 15 anos, de diferentes cidades, para a divulgação de notícias, realização de entrevistas, produção de música e edição do material.

Entre 2017 e 2018, oito gravações já foram realizadas e encontram-se disponíveis no YouTube (canal “Papagaios pelo Mundo®”).4

 

(4.3.2) Papagaio Escreve

Trata-se de um conjunto de atividades de apoio à prática da escrita em língua portuguesa. Congrega crianças e adolescentes para a produção de livros, troca de correspondências e criação de histórias a partir da interpretação de textos e imagens. Tais atividades também estão voltadas para a fomentação de contexto propício para a criação artística e desenvolvimento de atividades lúdicas. Entre 2014 e 2017, foram organizados dois livros escritos por crianças envolvidas no projeto, sendo um deles bilíngue (português-alemão), e realizadas parcerias com grupos que desenvolvem oficinas de escrita no Brasil e no exterior.

 

(4.3.3) Selo Editorial Papagaios pelo Mundo®

Trata-se de uma iniciativa que visa à edição de livros que abordem temas relacionados ao Brasil e possam ser usados como material informativo para jovens, crianças e suas famílias, bem como material paradidático para os educadores.

Em 2017, foi lançado o livro bilíngue de minha autoria Desvendando o Brasil/ Brasilien entdecken,5 que apresenta um rápido e descontraído passeio pela nossa história desde os tempos de Pindorama até os dias de hoje, por meio de textos concisos e ilustrações correspondentes.

 

 

4.4 Atividades em parceria com escolas

A importância e o estímulo dado por escolas locais e internacionais aos programas que valorizam as LHs são crescentes e as áreas de atuação e as oportunidades de voluntariado oferecidas aos membros destas comunidades são variadas.

Até o momento, minha atuação neste espaço tem sido feita de forma voluntária e como pessoa física, seja oferecendo suporte para a realização de eventos culturais e literários, seja desenvolvendo atividades em língua portuguesa relacionadas a conteúdos que já foram apresentados em sala de aula na língua local ou língua inglesa. Também foi estabelecida uma parceria com a escola de línguas The Language Club, sediada no Brasil, com o objetivo de divulgar a cultura brasileira e a língua portuguesa e promover o intercâmbio entre alunos de diferentes instituições e países. Outras atividades já foram estruturadas e encontram-se em fase de viabilização da implementação.

 

5. DESAFIOS

O primeiro desafio encontrado no caminho que o BRmais vem percorrendo é a carência de divulgação ampla e facilmente acessível de informações voltadas às famílias e aos educadores acerca da relevância do ensino do POLH, dos benefícios da educação bilíngue e dos fatores determinantes de seu sucesso. Questões como a necessidade do estabelecimento de planejamento linguístico familiar bem estruturado, assim como o reconhecimento da importância da idade inicial, da frequência e da qualidade de exposição da criança à LH ainda são pouco e, por vezes, erroneamente conhecidas.

Os programas em prol do POLH vêm sendo elaborados e executados atualmente, em grande parte, por pais e educadores voluntários ou precariamente remunerados. As atividades são baseadas nas necessidades do público-alvo, sem que haja alguma metodologia de referência voltada para a elaboração de estratégias educativas consecutivas, adaptáveis ao contexto bilíngue de cada país e passíveis de serem implementadas nas escolas locais. A limitação financeira para a aquisição de materiais didáticos e paradidáticos e manutenção das atividades é também uma realidade.

Além disso, o déficit na articulação entre comunidades, escolas e governos (brasileiro e locais) e a ausência de políticas linguísticas governamentais em todos os países são outros entraves que dificultam o desenvolvimento sequencial, estruturado e oficialmente reconhecido do ensino do português brasileiro no exterior.

Há necessidade de cursos para capacitação de professores e um modelo de avaliação do progresso do aluno, bem como mais apoio de instituições educacionais e governamentais a fim de minimizar os inúmeros desafios.

 

6. CONCLUSÃO

A língua é a parte central da identidade cultural de um povo. Por isso, o ensino da LH representa, para as gerações subsequentes de imigrantes, uma oportunidade sui generis de promoção e perpetuação da diversidade cultural e linguística de seus ascendentes em solo estrangeiro. O ambiente de cultivo da LH constitui-se, então, em espaço ímpar para o desenvolvimento multicultural, bem como para a vitalização e revitalização permanente da história de grupos minoritários.

Exatamente por isso, o ensino do POLH não pode ser compreendido apenas como a aquisição e manutenção da língua portuguesa no âmbito familiar ou o ensino de um idioma como disciplina escolar ou uma atividade complementar. A educação bilíngue voltada para a LH abrange questões muito mais amplas, complexas e interligadas. Exige um movimento de conscientização, com engajamento coletivo e planejamento sequencial, envolvendo a participação de famílias, comunidades, órgãos governamentais e educacionais. Sobretudo, requer a elaboração de uma estrutura capaz de englobar as questões identitárias, culturais e históricas, intrínsecas ao idioma, dentro de uma abordagem didático-pedagógica contextualizada e aplicável a diferentes espaços e faixas etárias.

Para que isso efetivamente ocorra, é necessário formar e reformar expectativas, desenvolvendo ações que atendam às necessidades dos grupos e ajudem a vencer os desafios.

No caso específico da atuação do br+ Foco no lado positivo do Brasil!©, observa-se que os diferentes programas desenvolvidos vêm contribuindo de forma positiva para o ensino do POLH.

As atividades na biblioteca são hoje um ponto de referência para a leitura em língua portuguesa e a socialização das crianças e seus familiares. Constata-se que, a partir desta atividade, o interesse por mais informações acerca dos benefícios do ensino bilíngue e a busca pela continuidade do ensino da língua portuguesa de modo mais formal e estruturado foram despertados.

Os programas para a prática da linguagem oral e escrita – respectivamente, “Papagaio Fala” e “Papagaio Escreve” – propiciam diferentes estratégias de uso da língua portuguesa, alcançando participantes de diferentes idades e localidades e impactando de forma positiva no desenvolvimento da proficiência linguística em diferentes áreas, bem como na construção da identidade social.

As tarefas voluntárias executadas em escolas locais e internacionais vêm colaborando para a valorização da língua portuguesa e da diversidade cultural do Brasil no exterior. Além disso, representam um significativo passo rumo à elaboração e validação de políticas linguísticas governamentais que venham a estabelecer oficialmente o ensino do POLH (e demais LHs) como parte da grade curricular de diferentes instituições educacionais na Alemanha.

As postagens do blog, 6 por sua vez, têm tido uma amplo alcance, promovendo a interação de pessoas e o pensamento crítico com relação à multiplicidade da identidade brasileira.

No entanto, apesar de todas estas conquistas, as barreiras para o desenvolvimento pleno da proposta do BRmais são muitas. Limitação financeira para aquisição de materiais e efetivação dos projetos; baixa ou nenhuma remuneração para o exercício das atividades; dificuldade de articulação mais ampla entre as comunidades, escolas e governos; carência de colaboradores; escassez de programas para a orientação das famílias e para a capacitação de educadores na área do POLH e falta de um modelo de avaliação do processo de aprendizagem estão em destaque.

Deixa-se aqui um convite à reflexão sobre a relevância de um investimento material, humano e político nestes aspectos.

 

 

 
 

REFERÊNCIAS

BERRY, J. W. Immigration, acculturation and adaptation. Applied Psychology: an international review, v. 46, n. 1, 1997. BRAZILIAN INTERNATIONAL PRESS ASSOCIATION – A comunidade brasileira nos Estados Unidos. Disponível em <http://abiinter.net/brasileiros-no-exterior> Acesso em: jun. 2018.

CLYNE, M. G. Pluricentric Languages: Differing Norms in Different Nations. Series: Contributions to the sociology of language. Berlin; New York: Mouton de Gruyter, 1992.

LO BIANCO, J.; PEYTON, J. K. Vitality of Heritage Languages in the United States: The Role of Capacity, Opportunity and Desire. Heritage Language Journal, v. 10, n. 3, 2013.

MANGUBHAI, F. Socialização primária e fatores culturais na aprendizagem de segunda língua: seguindo nosso caminho através do território semi-cartografado. Revisão Australiana de Linguística Aplicada, 1977.

MRE – Ministério das Relações Exteriores. Brasileiros no mundo. Disponível em <http://www.brasileirosnomundo.itamaraty.gov.br/a-comunidade/estimativas- populacionais-das-comunidades/Estimativas%20RCN%202015%20- %20Atualizado.pdf> Acesso em: jun. 2018.

POLLOCK, D. C.; REKEN, R. E. Third Culture Kids: growing up among worlds. Finland: Nicholas Brealey Publishing in association with Intercultural Press, 2001.

SILVA, T. T. da. A produção social da identidade e da diferença. LITE – Laboratório Interdisciplinar de Tecnologias Educacionais – FE UNICAMP. Disponível em: <http://www.lite.fe.unicamp.br/papet/2003/ep403/a_producao_social_da.htm> Acesso em: jan. 2016.

SOUZA, A. Language choice and identity negotiations in a Brazilian Portuguese community school. Em V. Lytra & P. Martin. (eds.). Sites of Multilingualism: Complementary Schools in Britain Today. London: Trentham, 2010.

__________. (Org.). Português como língua de herança em Londres: recortes em casa, na igreja e na escola. Brasil: Pontes Editores, 2016.

 

 

 

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1 http://abiinter.net/brasileiros-no-exterior

http://www.brasileirosnomundo.itamaraty.gov.br/a-comunidade/estimativas-populacionais-das-comunidades/Estimativas%20RCN%202015%20-%20Atualizado.pdf

2 www.brmais.net

3 www.brmais.net/encontros-de-leitura I facebook.com/brmais

4 YouTube: Papagaios pelo Mundo

5 Book Trailer: https://youtu.be/q8ZpJpdlExo

6 http://brmais.net/blog 

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Fernanda Krüger

Idealizadora e fundadora do br+ Foco no lado positivo do Brasil!© e da iniciativa pioneira BRmais e o Português como Língua de Herança no Ensino Globalizado©. É também cofundadora do programa de leitura em língua portuguesa Encontros de Leitura/ Portugiesischer Vorlesetreff, na Biblioteca Infantojuvenil de Frankfurt e criadora do selo editorial Papagaios pelo Mundo.