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Bodas de 50 anos

17/01/2020 Fernanda Krüger Textos contemporâneos

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Noivos (1970). Foto: acervo particular.

Há passagens de família que ficam marcadas na memória. A gente só conhece os fatos por relato, mas deposita a narrativa no banco de recordações. Algumas, em nome da paz, a gente mantém só entre os mais íntimos. Outras a gente relembra sorrindo, desejando ter estado presente para sentir na pele uma emoção rumo ao final feliz.

O casamento dos meus pais se enquadra no segundo caso. Sempre achei uma prova de nervos de aço o que antecedeu à cerimônia religiosa deles.

Antes da troca de alianças – em um cenário de igreja apinhada de gente – deram falta do padre! Inconscientemente apto a contribuir com bastante adrenalina para o momento, o sacerdote – escolhido a dedo para a celebração – confundiu os noivos e os horários da agenda de matrimônios do dia, derramou suas bênçãos sobre o casal do horário anterior, deu por encerradas as tarefas daquele sábado e deixou a igreja sem se dar conta dos outros noivos a caminho do altar. Desespero e corre-corre de lá e de cá. Mas, antes mesmo do nó da gravata apertar até tirar o fôlego ou do buquê murchar de pânico, um substituto disposto a ouvir duas vezes o "sim" validou, perante os homens e os santos, o compromisso do casal.

Há passagens de família que ficam marcadas na memória. Algumas são um pedaço de vida que a gente não viveu. Outras são um pedaço de vida que nos torna mais vivos por que a gente esteve presente e vai poder perpetuar a narrativa, com status de testemunha, no banco de recordações.

As bodas de 50 anos dos meus pais se enquadram no segundo caso. Apenas, nunca imaginei que esta data seria organizada por eles de maneira tão intimista.

Numa família que sempre viu pretexto em tudo para juntar todos os parentes para festejar, uma ocasião desta proporção jamais pareceu acomodar uma quebra de comportamento. Antes da data exata – em um cenário cheio de significados para cada um dos convidados – meus pais optaram por reunir apenas filhos, genros, nora e netas. Três dias para recordarmos e perdurarmos, em um número modesto de indivíduos, aquilo que eles construíram em meio século de convivência. Nenhum desespero e nenhum corre-corre de lá e de cá. O fluxo da harmonia teve cadência mansa dessa vez. Foi assim que validamos, perante os homens e os santos, o compromisso do casal.

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Fernanda Krüger

Idealizadora e fundadora do br+ Foco no lado positivo do Brasil!© e da iniciativa pioneira BRmais e o Português como Língua de Herança no Ensino Globalizado©. É também cofundadora do programa de leitura em língua portuguesa Encontros de Leitura/ Portugiesischer Vorlesetreff, na Biblioteca Infantojuvenil de Frankfurt e criadora do selo editorial Papagaios pelo Mundo.