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OS "OUTROS" NO BRASIL NAÇÃO

09/01/2020 Cristian Góes Raízes Culturais

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Chegada da Família Real ao Brasil. (Fonte: Acervo Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro, Domínio Público). 

 

Com a fuga da corte portuguesa para o Brasil em 1808, a colônia ultramarina foi forçada a acelerar os passos para se transformar em metrópole, ao menos na imitação. A necessidade de moradia e regalias para o rei e seu séquito implicou em alguma urbanização mínima nas povoações brasileiras. O reflexo disso, além de confortar os nobres e nem tão nobres europeus assim, foi a formação da elite nacional, dos ricos da terra alinhados aos mandatários do Velho Continente. Surgia o império nos trópicos formado por europeus brancos, brasileiros mestiçados e com algumas posses e uma imensa massa de gente pobre, a maioria negra e escravizada.

Ora, para ser uma nação de verdade, era fundamental a definição dos seus limites geográficos, o estabelecimento de identidade do povo nacional e, principalmente, a fabricação dos seus inimigos, de modo que esse Outro produzisse unidade/nacionalismo/patriotismo diante da sensação de uma permanente ameaça à nação. Em outras palavras, era preciso definir quem somos Nós, os brasileiros. Seríamos portugueses da América do Sul? Lusobrasileiros, indígenas, africanos, caboclos, cafuzos? Quais eram nossas referências identitárias? Quem não éramos? Quais os nossos inimigos, as ameaças que nos fazem unidos?

Sabemos, de saída, que os nascidos em terras brasileiras não eram nem europeus, nem africanos e fazia tempo que deixaram de ser índios, principalmente em razão dos extermínios constantes dos nativos. Nesse ponto, é preciso reafirmar que existe um profundo apagamento em Nós da condição indígena. Os reflexos das maiores barbáries genocidas da história contra os índios não foram apenas físicos, do aniquilamento da presença visível, mas o do extinguir seus traços identitários constituintes de Nós.  

Diante disso, como definir quem era o Nós, povo brasileiro? E onde estava o Outro? Reforço que uma nação se constrói fundamentalmente a partir da fabricação, da imaginação sobre os de fora dela, o que ameaça, intimida e, assim, faz-nos unidos contra Eles. Fixamos fronteiras físicas e morais e unificamos os de dentro. Grande parte dos Estados Modernos surge a partir desta construção fabular de seus Outros externos, de inimigos em potencial da nossa nação. Nos textos anteriores, tratei desse aspecto central: o Outro como definidor do Nós Mesmos

 

Outro como desejo

Em nações que foram colônias de exploração, com sociedades dependentes e submissas como a brasileira, não vamos encontrar apenas um Outro imaginado como inimigo e ameaçador da nação. Aqui, também vamos fabricar um Outro como um desejo, onde nossa relação com Ele é de encanto, bajulação, imitação. É assim que a Europa, e depois os Estados Unidos, no Brasil, foram transformados como esse Outro desejado, um Outro para Nós. Isso fica muito mais nítido a partir da vinda da família real no início do século XIX e se acentua com a República. Para a elite brasileira em formação, a Europa era a referência que deveríamos imitar. 

E onde estava o Outro rejeitado, o nosso inimigo e ameaça eterna? Em que nação Ele se escondia? Era preciso imaginá-lo para que pudéssemos, unidos, combatê-lo e, então, empregar sentido identitário entre Nós, formando o povo e a nação brasileira. Alguma sugestão onde podemos localizar esse Outro como ameaça? Aqui, entre Nós Mesmos, ou seja, convivemos na tensão identitária entre o Outro para Nós e o Outro contra Nós.

Perceba que o Brasil nasce como nação de modo curioso: não há outras nações e povos externos a guerrear e de quem, unidos, deveríamos nos proteger. Surgimos sem esses Outros de fora que nos ameaçam. Todavia, Eles existiam e estavam ao nosso lado, dentro de casa. Nós Mesmos, índios, negros, mestiços pobres éramos esse Outro indesejado e inimigo ao sonho identitário da elite nacional. As lutas, os massacres, genocídios, a busca da unidade para combater esse Outro ocorriam aqui mesmo, internamente. Uma parte da tragédia humana de nosso nascimento é que o Outro contra Nós, o inimigo identitário permanente, que deve ser eliminado estava entre Nós: negros e índios, livres e escravizados, e mestiços pobres de todos os troncos ancestrais. 

Tem-se, assim, um processo que define a identidade brasileira entre o Outro desejado, branco, europeu, civilizado - a ser bajulado e imitado, e o Outro rejeitado, indesejado, bárbaro, negro, índio - a ser combatido, excluído e eliminado. 

Entretanto, como era enorme a multidão de negros e mestiços a tomar a nação brasileira que surgia, a intelligentsia racista do século XX no Brasil vai apontar em Nós Mesmos a explicação para o subdesenvolvimento, atraso, violência e falta de educação. Para a elite nacional, mesmo com bajulação e imitação do modo europeu, seu não reconhecimento identitário no clube dos brancos e civilizados tinha um motivo central: o “mal de origem”, o próprio “povo brasileiro”. Deste modo, todos educados mantidos pela elite responsabilizavam índios, negros e mestiços pobres, ou seja, Nós Mesmos, como as causas e consequência de nossos males. 

 

Povo negro demais para o desespero das elites

A fuga de Dom João e de sua corte para o Brasil resultou na abertura dos portos para outras nações. Isso possibilitou que chegassem, de forma oficial, ingleses, alemães, franceses, italianos, holandeses, suíços, suecos, austríacos, entre tantos outros “brancos” em uma terra tomada por negros escravizados, índios e mestiços. Grande parte da vinda desses imigrantes ao Brasil era estimulada e até patrocinada pela coroa portuguesa. Lembra Costa e Silva (2011: 41) que “pagava-lhes a viagem de navio e lhes concediam, ao chegar, um trato de terra”. 

Quando o Brasil ganhou status de “Reino Unido a Portugal e Algarves”, em 1815, o processo imigratório europeu se ampliou, afinal de contas, éramos um “reino”. O Rio de Janeiro se tornou a cabeça do império e referência para as demais províncias. A presença, como moradores, dos membros da família real e de outros europeus em uma terra destinada a ser saqueada exigiu um mínimo projeto civilizatório; o incentivo da imigração “branca” era parte desse plano. A ideia era embranquecer o Brasil, que, em razão de uma população negra e mestiça, era conhecido como “Nova África”, para desespero da elite nacional.

Lembra Lilia Schwarcz (2011: 230) que o Conde de Palmela comentava com sua mulher, certamente com profundo horror, que no Brasil “faltava gente branca”. De fato, em 1821, só no Rio de Janeiro eram mais de 38 mil escravizados, em um total de 90 mil habitantes, sem falar nos negros livres e nos mestiços. Por isso, as campanhas racistas que traziam “gente branca” ao Brasil eram uma constante. Nórdicos foram atraídos com o recebimento de “moradias, ferramentas, carro de boi e tudo que fosse necessário” (Schwarcz, 2011: 231). 

Como alguns recém-chegados imigrantes eram homens que vinham sozinhos e, logo, usavam sexualmente as índias, as negras e mestiças, Portugal, revela Costa e Silva (2011: 38), mandou buscar e aqui introduziu muitas europeias “órfãs, indigentes, prostitutas e condenadas à prisão”. A ideia era atender aos homens europeus e povoar a nação com brancos. A regeneração das indigentes, prostitutas e condenadas à prisão na Europa e despejadas no Brasil passava por parir filhos brancos nessas terras. Entretanto, este fluxo de imigrantes foi pequeno até meados do século XIX, o que foi revertido com o cultivo do café, com as crises econômicas e guerras que assolaram a Europa e com a abolição da escravatura no Brasil.

Além de portugueses, muitos ingleses e franceses chegaram ao Brasil. A Inglaterra teve grande influência política e econômica em Portugal e sobre as colônias portuguesas. Os ingleses foram decisivos na fuga da corte de Lisboa ao Brasil e aqui regularam boa parte das relações comerciais. Leslie Bethell (2012: 135) diz que os ingleses tinham o direito de ter imóveis e morar no Brasil, de “manter suas próprias igrejas, cemitérios e hospitais, bem como de nomear magistrados especiais incumbidos de todos os processos envolvendo súditos britânicos”. 

Lembremos que a Inglaterra, em troca do reconhecimento da Independência brasileira, obrigou o Brasil a “pagar uma indenização a Portugal no montante de 2 milhões de libras esterlinas, sendo 1,4 milhão em empréstimos tomado a bancos ingleses” (Bethell, 2012: 136). A dependência portuguesa dos britânicos era tanta que Sousa Santos (1994: 44) afirma que Portugal foi um país semiperiférico em boa parte do período colonial, “atuando como correia de transmissão entre as colônias e os grandes centros de acumulação, sobretudo a Inglaterra a partir do século XVIII”.

 

A agonia da sociedade de aparência civilizada

Este destaque dado à Inglaterra objetiva chamar a atenção de que as definições identitárias no Brasil não são exclusivamente portuguesas, mas sobretudo europeias. Era o mundo civilizado e branco que aqui se apresentava, que impunha seus modos e que passa ser copiado e bajulado pela elite nacional em formação, que busca apagar sua cor mestiça, eliminando traços indígenas e negros. Por isso, revela Costa e Silva (2011: 58), inúmeros aristocratas que acompanharam a família real e os que vieram logo depois para o Brasil “passaram a ser invejados e imitados, tanto pelos proprietários rurais e pelos negociantes”. 

Para a elite local brasileira, a imitação dos europeus em tudo era uma ação de agonia para sua ascensão e diferenciação. Tentava-se a todo custo apagar da história os índios, negros africanos e mestiços “sujos” da terra. Os da elite nacional que mais se esmeravam na bajulação, servindo à corte e aos europeus “civilizados”, ganhavam títulos de nobreza, como os de duques, condes e barões. Em resumo, “ao lado da nobreza titulada fora do país, surgia uma nobreza da terra, ávida pelos mesmos símbolos de distinção europeus” (Schwarcz, 2011: 219). Assim, reforça Saliba (2012: 239), os europeus se imaginavam civilizadores e viam seus “costumes, formas de pensar, ver e agir transformados em modelos inspiradores de novas guinadas culturais”.

Em determinado momento, a França foi modelo para a elite do Brasil, porque era a referência para os portugueses. Em 1814, milhares de franceses chegaram aqui e ocuparam o setor de serviços, a venda de produtos de luxo, cultura e educação. Brasileiros que se achavam nobres “vestiam, comiam, liam e pensavam como os franceses. Para os brasileiros de posse, inclusive o imperador, Paris ‘foi e é a paixão cosmopolita dominante em redor de nós’, diz Joaquim Nabuco” (Bethell, 2012: 153). Temos uma sociedade onde “as mulheres de posse passaram a vestir-se, primeiro, a imitar as nobres vindas de Lisboa; depois, a seguir as notícias de Paris. Os homens trajavam rigorosamente à inglesa, com lãs pesadas” (Costa e Silva, 2011: 52).

Imitação e aparência não transformaram o Brasil em Europa. O povo não embranqueceu. Nas ruas, em frente ao restaurant, perambulava um povo-nação, predominantemente negro e mestiçado, fruto da mais absoluta exploração humana e escravista, e que era a causa do pavor das elites nacional e europeia. Genocídios, catequeses e doenças não reduziam esta “gente escura” que também começava a se entender como brasileira. Para o europeu recém-chegado, o Brasil era, ao mesmo tempo, a curiosidade, o deslumbramento com a natureza, a expectativa de obter fortunas, mas, também, o pânico diante de negros e mestiços escurecidos.

Em cartas dos europeus, eram comuns expressões como “canibalismo”, “bárbara antropofagia” e “infectados” para se referir aos índios, negros e mestiços pobres. E nessa atmosfera havia sempre o medo de rebeliões (Schwarcz, 2011: 218), o que gerava um pavor crescente e mais violência destinada ao Outro contra Nós. Assinala Wasserman (2011: 27-28) que, entre Império e República, importantes intelectuais da elite, como Francisco Adolfo Varnhagen, José Bonifácio e Capistrano de Abreu defendiam que o Brasil só se tornaria nação se fizesse um duro enquadramento dos negros, índios e mestiços. Defendiam controle, afastamento das áreas urbanas, exclusão e embranquecimento.   

Nossa atenção está voltada ao Outro contra Nós, que habitava entre Nós e que somos Nós Mesmos. Para a elite, era necessário que esta Diferença fosse eliminada para se ter uma “grande nação”, limpa, branca, com “ordem e progresso”. No próximo texto vamos tratar da abolição do trabalho escravizado e da chegada da República. Até lá.

 

REFERÊNCIAS

Bethell, L. (2012). O Brasil no mundo. In: Carvalho, J. M. de. A Construção Nacional 1830-1889. Vol. 2. Rio de Janeiro: Objetiva, p. 131-177.

Costa e Silva, A. da. (2011). População e sociedade. In: Costa e Silva, A. da. (Coord.) Crise Colonial e Independência 1808-1830. Vol. 1. Rio de Janeiro: Objetiva, p. 35-74.

Saliba, E. T. (2012). Cultura: as apostas na República. In: Schwarcz, L. (Coord.). A abertura para o mundo 1889-1930. Vol. 3. RJ: Objetiva, p. 239-294.

Schwarcz, L. (2011). Cultura. In: Costa e Silva, A. da (Coord.). Crise Colonial e Independência 1808-1830. Vol. 1. Rio de Janeiro: Objetiva, p. 205-248.

Sousa Santos, B. de. (1994). Modernidade, identidade e a cultura de fronteira. Revista Tempo Social; Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 5 (1-2): p. 31-52.
Wasserman, C. (2011). Identidade Nacional: O Brasil para seus intelectuais. Rev. Acervo, v. 19, p. 23-36.

 

A SEQUÊNCIA DOS TEXTOS SOBRE ESSSA TEMÁTICA: 

1 - A fabulação do Outro: herança colonial e a construção das identidades no Brasil.

2 - As identidades e a ideia do Outro: da separação imaginária aos muros reais.

3 - A trajetória manipulada das identidades: da imagem deformada ao controle do Outro

4 - As fantasias da nação e da pátria: ou das formas concretas de nos separar.

5 - A invasão do Novo Mundo: o projeto mercantil-religioso de abuso e apagamento do Outro.

6 - Racismo, a marca visível de colonialidade: uma discussão identitária sobre as raízes do Brasil.

7 - E o paraíso já tinha dono! A partida e a chegada ao Novo Mundo na construção das identidades. 

8 - O sangue indígena banhou o Novo Mundo: a extrema violência é uma de nossas marcas identitárias. 

9 - O amansamento pela cruz: como a pedagogia da inversão é decisiva para as identidades do Brasil. 

10 - O nascimento da "ninguendade."

11 - Escravização negra no Brasil: como o racismo se tornou instituição nacional.

12 - A pedagogia racista: a igreja e a naturalização da violência contra os negros escravizados. 

13  - A visibilização dos invisíveis: ser dono de um escravizado se tornou uma obsessão

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Cristian Góes

Jornalista. Doutor em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com doutorado sanduíche na Universidade do Minho, em Portugal. É mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). Especialista em Gestão Pública (FGV) e em Comunicação da Gestão de Crise (Gama Filho). É membro da Comissão Nacional de Ética dos Jornalistas Brasileiros e professor voluntário de Jornalismo na UFS. (cristiangoes_brasil@yahoo.com.br)