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O nascimento do amor cortês*

09/06/2018 Vanete Santana-Dezmann Literatura e Leitura

A concepção ocidental de amor sempre existiu? A defesa do amor livre é um advento do mundo pós-moderno? O “amor livre” é um “vale tudo”? O feminismo é uma manifestação pós-Revolução Industrial?

 

 © Domínio Público / Tristão e Isolda com a poção mágica, por John William Waterhouse (c. 1916) 

 

Muito do que somos e temos hoje devemos aos medievais, por mais que alguns não o queiram admitir. Talvez o que nos separe deles seja apenas o tempo, que passa por todos nós, independentemente de nós. Nossa concepção de amor, por exemplo, observável em todas as manifestações artísticas contemporâneas – das músicas sertanejas brasileiras aos romances de Hollywood – é a mesma que permeia os romances de cavalaria e a lírica trovadoresca, criações genuinamente medievais. 

Embora em sua origem, entre os séculos VII ao IX, a cavalaria estivesse ligada ao banditismo, tendo como principais valores a força e a violência e perturbando a ordem proclamada pela Igreja, em um momento posterior, no século X, ela passa por um período de transição, sendo controlada pelos senhores feudais, e, no século seguinte, torna-se o braço armado da Igreja, indo lutar nas Cruzadas.

A partir da Primeira Cruzada, ocorrida em 1095, criou-se no interior da Igreja um meio para se constituir a cavalaria propriamente cristã, voltada para a defesa dos oprimidos, das viúvas e órfãos e também das mulheres de nobre nascimento. Passam a coexistir, então, três tipos distintos de cavalaria: a Cavalaria Feudal (instituição cortês), a Cavalaria Cristã (instituição religiosa composta pelas ordens militares da Igreja) e a Cavalaria Mística, que existia apenas no plano imaginário como um produto híbrido das duas outras e que, da Cavalaria Cristã, herdou o propósito básico – a harmonia social – e, da Cavalaria Feudal, herdou o ideal de amor – relacionado à busca incessante de um objeto de impulso amoroso, fosse ele a dama inacessível, fosse a contemplação do Santo Graal. 

O século XII pode ser visto como um período de relativa paz, principalmente no sul da França. A vida castelã dá margem a certo ócio e precisa ser preenchida por uma vida cultural mais intensa. Neste momento, a cortesia nasce como uma espécie de código civilizatório para nortear as ações do cavaleiro no interior da corte. As leis cavaleirescas podem ser vistas, portanto, como um artifício usado para moldar o cavaleiro a certos padrões de comportamento viáveis no contexto em que ele se encontra inserido. Juntamente com a instrução militar, ele passa a aprender códigos de ética que guiem seu relacionamento com outros cavaleiros e padrão moral para se relacionar com as damas. Assim, o jogo do serviço amoroso praticado na corte, de algum modo, serviu para criar o conceito de que o amor deveria nascer a partir da familiaridade amistosa e da contemplação – não podendo ser confundido com dever conjugal. Assim, justifica-se o adultério como único meio de se manter fiel aos próprios sentimentos, uma vez que a sociedade se encontrava alicerçada no casamento por conveniência. Isto explicaria o fato de a base imaginária do amor cortês estar na montagem de romances amorosos que, assim como a lírica trovadoresca, fazem apologia ao adultério. Logo, é a cortesia que dá origem ao imaginário e que constitui o elemento que simboliza a transgressão da moral da Igreja. 

Percebendo a emergência desta concepção de amor – não exatamente nova, uma vez que possivelmente se remeta às filosofias aristotélicas e platônicas, mas, de qualquer forma, inédita – no sentido em que o amor desinteressado, contemplativo e sublime jamais, na história ocidental, havia tido a mulher como objeto de inspiração –, Marie de Champagne, bisneta do primeiro trovador (Guilherme de Aquitânia), no terceiro dia das calendas de maio de 1174, faz o seguinte pronunciamento:

Pelo teor dos presentes, afirmamos e sustentamos que o amor não pode estender seus direitos entre marido e mulher. Os amantes prodigalizam-se todas as coisas de forma recíproca e gratuita, sem qualquer obrigação de necessidade, ao passo que os esposos estão atados por dever a todas as vontades um do outro. Que este veredicto, que pronunciamos com extrema maturidade, após ouvir várias senhoras, seja considerado verdade permanente e irrefragável (CHAMPAGNE, apud FOUCHER, 1991, p. 76).

Não é de se duvidar que nesta época tenha se registrado esforço redobrado em prol da ordenação social e moral – projeto ao qual os códigos feudais e da Igreja, de teor reconhecidamente coercivo, encaixam-se perfeitamente. 

Ao mesmo tempo em que contraria o domínio da Igreja, a cortesia exerce profunda influência sobre a literatura medieval, podendo ser considerada como fator intrinsecamente relacionado à lírica trovadoresca, desenvolvida na Provença, e aos romances de cavalaria, que ocupam lugar de destaque na corte de Champagne. 

Entre os romances de cavalaria exemplares, encontramos O romance de Trisão e Isolda, que, já em suas primeiras linhas, anuncia o amor como uma espécie de pharmacon, tanto pode curar nossas dores, com a felicidade, como nos levar à morte, pelo sofrimento: “Senhores, gostaríeis de ouvir um belo conto de amor e de morte? É de Tristão e Isolda, a rainha. Escutai como em grande alegria, em grande tristeza eles se amaram, depois morreram num mesmo dia, ele por ela, ela por ele” (BÉDIER, 1988, p. 01). 

Do túmulo de Tristão nasce um espinheiro de flores perfumadas que, elevando-se sobre a capela, enterra-se na sepultura de Isolda. 

Envolvidos pelo amor, nossos personagens a ele se entregam, sem restrições, até a morte. A ideia da fatalidade do amor o eleva acima de todas as leis. 

Um dos méritos d’O romance de Tristão e Isolda está na forma de expressão “adequada” – posto que simbólica – que consegue dar ao amor. Outro mérito se encontra no fato de ele se constituir na primeira crítica ao caráter convencional do casamento enquanto instituição necessária à sobrevivência, sem que o amor entre os noivos seja, necessariamente, levado em consideração. 

Saindo da ficção, encontramos outro casal de amantes que entrou para a história por encarnar o arquétipo dos amantes ideais: Abelardo e Heloísa: “A separação de nossos corpos aproximou ainda mais nossos corações, com isso, nosso amor, privado de todo consolo, aumentou ainda mais” (ABELARDO, 1989, p. 43).

Após muitas estratégias para viver o amor impossível, os sofrimentos de Abelardo chegam ao fim no ano de 1142. Heloísa demora ainda vinte e dois anos para se juntar a ele. 

No mito, inconscientemente, Tristão e Isolda se apaixonam um do outro após beberem a poção do amor, o pharmakon. O amor os cega e enlouquece, porém, quando conseguem o espaço necessário para a concretização de seu amor e passam a viver juntos na floresta, perdem o interesse um pelo outro e decidem se separar. Uma vez separados, o amor volta com toda a força e os leva à morte. O amor, pois, assemelha-se a um veneno contra o qual o antídoto seria o casamento. Lembremo-nos de Marie de Champagne, para a qual casamento e amor eram incompatíveis. 

O caso de Abelardo e Heloísa não é diferente do de Tristão e Isolda. Abelardo não a amava quando se aproximou dela. Havia apenas uma atração que ele estava disposto a satisfazer de uma forma ou de outra. Porém, bastaram poucos instantes para que o amor os possuísse, como se houvessem provado da mesma poção que Tristão e Isolda. O encantamento se tornara inevitável e lhes tira a razão, levando-os a se expor aos maiores perigos. 

A incompatibilidade entre instinto e pensamento se mistura a outras incompatibilidades percebidas na época, quando sensibilidade e vontade, real concreto e abstração dedutiva, política e teologia, economia e moral, poder criador e ciência teórica, homem e Deus ocupam polos opostos que alimentam o idealismo, o misticismo e o ascetismo, de um lado, e a política, de outro. Diante deste quadro, as pessoas se fixam a pontos extremos, escolhendo se entregar à abstração ou aceitando a dureza da realidade. Elas se sentem divididas com relação ao amor. Este, reprovado pela moral eclesiástica e dissimulado pelo casamento, não encontra espaço para se desenvolver livremente, pois tudo, inclusive os sentimentos, deveria ser enquadrado no âmbito racional e teórico para ser aceito. Dada a impossibilidade de se encaixar o amor num destes quadros – da racionalidade ou da teoria –, ele foi mantido à margem da sociedade como algo não-civilizado e, ao mesmo tempo, privado de linguagem. É neste contexto que nasce a cortesia, tornando possível, a partir de então, a expressão dos sentimentos, principalmente do amor, por meio de uma linguagem que toma como modelo as relações de vassalagem e suserania que existiam entre o senhor e o servo. Esta mesma linguagem estabelecerá uma situação típica, o obstáculo, imanente ao amor. Para a manutenção do obstáculo, a cortesia se coloca contra o casamento – posto que este implica direito de posse –, mas não contra as relações sexuais. A relação entre os amantes consegue, então, por meio da cortesia, inserir-se na vida das pessoas. Porém, embora satisfizesse às necessidades de expressão do sentimento amoroso, não resolvia os conflitos existenciais, nem amenizava o sofrimento humano, pois escapava à tradição eclesiástica, que permeia a vida do homem ocidental. 

Havia, pois, duas morais em confronto: a cristã e a cortês. Para a primeira, o casamento é um dos sacramentos, legitimando a união de dois corpos aptos a procriar. Por isto o casamento se constituía numa forma de santificar os interesses da espécie e da sociedade; consequentemente, o adultério constitui um sacrilégio, um crime contra a ordem natural e social. A moral cortês, por outro lado, enaltece o amor irrestrito, independente das convenções e conveniências, negando, pois, o sacramento do casamento. Assim, se a moral cristã pregava a união carnal, a cortês passou a defender a virtude da castidade para despertar a noção de que há uma dimensão divina no amor, invisível aos olhos da sociedade. Daí a idealização do amor. 

O problema apresentado pela cortesia estava, pois, não na concretização do amor ou no casamento por amor, mas no oposto disso: na obrigação de que as pessoas, unidas pelo casamento de conveniência – como era normal às famílias nobres –, concretizassem o amor como mais um de seus deveres conjugais, e não como um ato que aproxima o humano do divino. Diante das convenções da época, o adultério se apresentava, pois, como única possibilidade de amar, daí seu caráter místico. 

Amor e casamento por conveniência – seja ela o cumprimento de uma promessa antiga; a conquista de poder, proteção ou mesmo felicidade ou a satisfação da necessidade social que nos é imposta – são incompatíveis e excludentes e sua coexistência nos remete ao mesmo conflito em que se debateram nossos heróis arquetípicos: quando solteiros, querem se casar; quando casados, querem se separar ou, acovardados pela falta de esperança, buscam no adultério a concretização de seu desejo de amar e ser amado. Enquanto isso, os índices de separação e adultérios em qualquer sociedade são diretamente proporcionais ao seu poder de coerção. Como o sagrado tem perdido seu lugar nas sociedades moderna e pós-moderna e as coerções sociais perdem cada vez mais seu efeito, as coerções religiosas, consequentemente, caem diante das pessoas que não mais se sentem inclinadas a proferir promessas que não poderão cumprir, principalmente quando se trata de promessas às quais estarão presas para o resto da vida – como quer a Igreja. Logo, os antigos valores foram extintos não porque foram superados; apenas perderam o valor. Talvez seja por isto que generosa dose de conformismo – suficiente para destruir o conflito entre as duas morais hostis e conduzir o indivíduo à neutralidade ou apatia – é necessária para assegurar o sucesso dos casamentos atuais (cf. ROUGEMONT, 1988, p. 193-207). A alternativa é perceber que nossa concepção de “amor ideal” foi gerada em um contexto em que não poderia ser concretizado, daí a idealização. O contexto atual é diferente! Ao menos os integrantes da classe média e alta não precisam mais se casar por conveniência. Então... podemos tirar a Idade Média de dentro de nós. 

Fica aqui um convite ao amor pelo amor – o amor como expressão do Sagrado em nós.

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BIBLIOGRAFIA: 

ABELARDO, P. Correspondência de Abelardo e Heloísa (trad.: Lúcia Santana Martins). São Paulo: Martins Fontes, 1989, 1a. edição. 

BÉDIER, J. O romance de Tristão e Isolda (trad.: Luís Claudio de castro e Costa). São Paulo: Martins Fontes, 1988, 1a. edição. 

FOUCHER, J. P. “Introdução a Cliges ou a que fingiu de morta”. In: TROYES, C. Romances da Távola Redonda (trad.: Rosemary Costhek Abílio). São Paulo: Martins Fontes, 1991, 1a. edição. 

ROUGEMONT, D. O amor e o Ocidente (trad.: Paulo Brandi e Ethel Brandi Cachapuz). Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988, 2a. edição.

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* Este artigo foi elaborado a partir do Relatório de Iniciação Científica I, desenvolvido sob orientação do Prof. Dr. Haquira Osakabe no Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas, com financiamento da FUNCAMP/UNICAMP. Aproveito para agradecer ao Prof. Haquira, que já se encontra em outro plano, pela orientação e à Universidade Estadual de Campinas pelo apoio à pesquisa.

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Vanete Santana-Dezmann

Profissional da área de ensino e pesquisa com 25 anos de experiência. Tem licenciatura e bacharelado em Letras, e mestrado e doutorado em Teorias de Tradução, pela UNICAMP, com estágio de pesquisa na Universidade Livre de Berlim. Tem pós-doutorado em Estudos da Tradução pela USP, com estágio de pesquisa no Museu Goethe de Düsseldorf. De seu currículo fazem parte dezenas de artigos científicos, livros e palestras.