Blog BR+

Empreendedorismo & Dislexia: há mais coisas em comum aí do que você imagina

01/06/2019 Beatriz Mello Mulheres Brasileiras

#

Foto: Acervo pessoal N. Heisler 

Nadine Heisler estudou Engenharia de Alimentos mas logo percebeu, ao fazer um estágio em uma escola pública, que “sua praia” era mesmo a educação e seu propósito, compartilhar conhecimento. Trabalhou com treinamentos corporativos e formação profissional por um longo período. Teve também uma loja de brinquedos educativos. No entanto, foi sua experiência como mãe que a levou a dar um passo em direção ao empreendedorismo digital na área da “tech-educação”.

Tudo começou quando descobriu que uma de suas quatro filhas tinha dislexia. Para ajudá-la a trilhar os caminhos possíveis para sua alfabetização e desenvolvimento, Nadine pesquisou e adquiriu conhecimento sobre o assunto. Segundo a educadora, esses caminhos são bastante complexos, principalmente no Brasil, onde as informações sobre o tema ainda são desencontradas. Ela entendeu que ser disléxico tem muitas vantagens (que inclusive contribuem para o empreendedorismo) mas que, por demandar estratégias diferentes de ensino, a dislexia acaba se tornando o que ela denomina “uma vulnerabilidade invisível”. Além disso, mesmo estando presente no dia a dia de estimados 10% da população, o tema é ainda muito restrito ao meio acadêmico e pouco divulgado ou discutido na sociedade, o que dificulta o acesso a diagnósticos e suporte no desenvolvimento.

Nadine afirma que um dos momentos mais marcantes da sua vida foi quando, ao sair de casa para buscar o laudo no neuropediatra que iria finalmente confirmar o diagnóstico, sua filha lhe perguntou: “Mãe, você acha que ele vai dizer que eu tenho dislexia?” Nadine disse que não sabia e questionou qual o motivo da pergunta. Achava que sua filha poderia estar com medo, por não querer ser disléxica. A resposta a surpreendeu: “Não, mãe, ao contrário. Eu quero ser disléxica. Eu quero ter todas estas coisas bacanas que você sempre diz que a dislexia tem.” Nesse momento, conta Nadine, emocionada, foi que ela se deu conta que tinha feito algo muito acertado na vida: conseguiu promover a percepção positiva da dislexia e permitir que sua filha tivesse orgulho e vontade de ser aquilo que ela é, reconhecendo as qualidades mesmo quando muitos apontam apenas o lado negativo. Decidiu que devia, como se diz nos jargões de uma startup, “escalonar” esse sentimento, criando ferramentas para que mais disléxicos e seus educadores tivessem a oportunidade de superar as dificuldades e reconhecer os aspectos positivos.   

Nadine juntou, então, seus anos de experiência profissional como educadora com o desejo de compartilhar as informações que adquiriu acompanhando o desenvolvimento da filha e criou o “Domlexia”, uma plataforma digital educativa com planos e metodologia pedagógica para auxiliar escolas e professores em salas de aula. Além disso, a plataforma disponibiliza, gratuitamente, um aplicativo com jogos cognitivos voltados para crianças com dislexia em fase de alfabetização, ajudando-as no processo de aprendizagem.

Em 2017, inscreveu seu projeto no Global Impact Challenge – um Desafio de Educação organizado pela Singularity University no Brasil – e foi escolhida como uma das finalistas. Aos 50 anos, Nadine deu uma virada em sua vida e se tornou uma empreendedora digital, pronta para enfrentar os desafios de uma startup e promover soluções para a educação no Brasil e no mundo. O Domlexia ganhou asas e já foi reconhecido nacional e internacionalmente. Em 2018, a plataforma foi selecionada para participar do Congresso Internacional de Dislexia em Lisboa, onde ganhou o prêmio “Inovação em Educação”. 

Em entrevista para o Blog BRmais, Nadine divide sua trajetória como mãe e empreendedora digital, contando mais detalhes sobre o projeto Domlexia e sobre a dislexia em si. Ela ainda nos mostra como as tecnologias e a busca por diversidade de soluções propiciam um momento ideal para falarmos sobre o assunto e valorizarmos o ponto de vista diferenciado de quem tem um processamento cerebral diferente. 

Nadine, como teve início o projeto “Domlexia”?

Ele começou quando eu passei a viver esse processo de descoberta da dislexia junto com minha filha. É um processo obscuro, onde não se tem muita informação ou, quando se tem, ela é muito complexa, extremamente acadêmica e difícil de ser assimilada. Isso me incomodava. Estamos falando de 10% da população com dislexia! É um monte de gente em um país como o nosso, que tem muita pobreza, falta de conhecimento e dificuldade de acesso a profissionais qualificados para lidar com o tema. Com certeza, nem todos os pais têm as condições que eu tive de estudar, de ler e ir atrás dos dados, ou até mesmo de ter acesso a especialistas competentes, como os que eu tive a sorte de encontrar ao longo do processo. Tinha na cabeça que precisava desenvolver um projeto para divulgar e dividir todo esse conhecimento que adquiri, compartilhando a informação de uma maneira adequada. Achava que iria acontecer mais no futuro quando eu já tivesse uma estabilidade profissional que me permitisse tirar dois dias da semana para me dedicar. Porém minha vida mudou. Minha loja de brinquedos educativos não foi para frente; eu me divorciei e precisava me reinventar. 

Voltei a trabalhar com formação profissional mas, dessa vez, mais voltada para o desenvolvimento humano. Um dia, recebi um email informando que a Singularity University – universidade que fica no Vale do Silício e busca apoiar startups para promover a inovação – estava abrindo o processo de inscrições para que empreendimentos brasileiros participassem do “Global Impact Challenger”, cujo tema era Educação. Eles buscavam projetos de ensino à distância, escalonáveis (que atingissem muitas pessoas) e destinados a um público com alguma vulnerabilidade. Vi que meu projeto se encaixava direitinho no perfil. Coloquei-o no papel e mandei tudo para eles. Fui selecionada e fiquei entre os dez finalistas do Brasil. O feedback foi muito positivo, o que me incentivou a colocar o projeto em prática. Eu pensei: a hora é agora!

E como foi o processo de colocar o projeto de pé?

O projeto surgiu com o objetivo de: 1) passar informação, 2) dar ferramentas e 3) prover algum tipo de acompanhamento. Eu juntei pessoas para me ajudarem nisso, principalmente profissionais que tinham formação técnica na área do atendimento de crianças com dislexia. Foi um processo de construção mesmo; muita gente ajudou. Começamos pelo site, que tem uma série de informações sobre a dislexia. Em seguida, iniciamos o desenvolvimento do aplicativo para ajudar crianças na fase inicial de alfabetização e, depois, criamos o material de suporte e os planos de aula para professores e escolas.    

Sobre o aplicativo: o que ele faz? Para quem ele é? Em qual momento ele é importante? 

Primeiro é importante entender um pouco mais sobre a dislexia e as dificuldades dela decorrentes. Quem tem dislexia tem uma dificuldade no que se chama de consciência fonológica, que é a capacidade do cérebro de relacionar os sons (fonemas) com a escrita (grafemas). Por exemplo, as crianças com dislexia têm dificuldade de entender que a palavra “BAnana” tem o mesmo som inicial que a palavra “BAla”. E como se fortalece isso? Através de exercícios fônicos. Então resolvemos trabalhar em algo que começasse a despertar essa consciência fonológica, utilizando como ferramenta o jogo online. Trabalhando tais questões de forma lúdica e dentro de um contexto que interessasse à criança. Esse é o principal objetivo do aplicativo. São vários “minigames” e, em cada um deles, a criança constrói uma primeira relação entre fonemas e grafemas através de brincadeiras. Nós trabalhamos bem a fase inicial de alfabetização, para crianças de 6 a 7 anos, com jogos desenvolvidos para essa fase da vida. 

Foto: Acervo pessoal N. Heisler 

A plataforma Domlexia também contribui para o professor. Trata-se de um tipo de exercício que é realmente complicado de ser aplicado em sala de aula. Normalmente, ele acontece só em consultórios mas ali, no aplicativo, a gente o transformou em uma coisa simples. O professor não precisa aplicar nada, só estimular a criança a jogar. E depois, ele pode acompanhar os relatórios e planilhas que disponibilizamos. 

O aplicativo também está disponível para pais e alunos?

Sim, também deixamos o aplicativo disponível em uma versão mais simplificada (sem relatórios ou acompanhamentos) nas versões IOS e Android, de forma gratuita, para todos que quiserem acessar. Sabemos que existem vários pais, em diferentes partes do Brasil, sem acesso a escolas que se disponibilizem a promover a integração e a desenvolver o aprendizado do disléxico de acordo com suas necessidades ou sem acesso ao acompanhamento profissional necessário. Nesses casos, o aplicativo acaba sendo a única ferramenta de apoio para eles.

O Domlexia é um projeto que utiliza bastante a tecnologia, mas também é muito humano. Como você faz essa conexão entre o suporte tecnológico e o suporte humano?

Como ferramenta, a tecnologia nos auxilia muito. Ela nos permitiu transformar a parte mais complicada do processo de aprendizado em um jogo. Possibilitou também desenvolver e atuar em uma linguagem mais atual e adequada, capaz de promover um melhor engajamento com essa molecada. Isso é ótimo, mas não é o suficiente. O compartilhamento humano em outras atividades e abordagens é fundamental. Como falei, além do jogo, nós disponibilizamos um suporte didático com planos de aula. Propomos que, junto com o aplicativo, as crianças sejam estimuladas a fazer o que chamamos de atividades cinestésicas ou “mão na massa”, como a utilização de colagens e massinhas. Também as incentivamos a trabalharem em grupo e dividirem o que aprenderam. O contato humano é fundamental e indispensável.

A tecnologia permitiu igualmente uma outra coisa incrível: a pulverização do conhecimento de uma forma mais democrática. O professor de qualquer lugar do país tem acesso às informações e a todos os planos de formação, já que os mesmos estão disponíveis online. Ele não precisa de mim ou de outro especialista a seu lado para acessar esse conhecimento. 

E já é possível perceber reflexos dessa democratização do acesso? O aplicativo é acessado em várias partes do Brasil?

Sim, com o aplicativo isso já está acontecendo. Temos acesso do Brasil inteiro. É bem interessante isso. Nós disponibilizamos também uma versão para consultórios terapêuticos e o que vemos é que há mais pedidos de profissionais que atuam em cidades menores, fora do eixo Rio, São Paulo e Belo Horizonte. A mesma coisa acontece em nosso site, onde recebemos muitas mensagens de professores e pais compartilhando suas histórias e nos pedindo ajuda. O mais comum é receber emails de pessoas que estão fora dos grandes centros, o que mostra claramente como a tecnologia é capaz de dar acesso a informações de qualidade. 

Foto: Acervo pessoal N. Heisler 

E como você se sente quando lê uma mensagem de um pai, um professor ou terapeuta contando sobre o uso do aplicativo?

[Emocionada]. A gente chora, né... Muitas vezes preciso sair, dar uma volta, respirar. Porque impacta mesmo... Eu sou mãe; a gente sabe o desespero que é querer ajudar o filho e não saber como, por qual caminho ir... Ou mesmo os professores, eles mandam mensagens perguntando como agir, pois não sabem como. Querem fazer o melhor mas a própria faculdade de Pedagogia dificilmente dá esse tipo de formação e orientação... Então poder contribuir é muito gratificante. 

Outro dia tivemos uma experiência muito bacana. Voltamos em uma das primeiras escolas onde fizemos o teste-piloto. Era uma reportagem e a jornalista resolveu entrevistar uma das crianças que participou da primeira etapa do projeto. Ela pediu para jogarem junto o jogo e perguntava: “me fala o som da letra T... e da B.” A criança foi falando e acertando tudo! Isso é muito gratificante. Isso vale a pena..  Mesmo vendo o impacto em uma única pessoa, já vale a pena. Porque não é uma decisão muito fácil, com 50 anos, você se arriscar, não seguir pelo lado mais fácil, buscar por um caminho não tradicional, ousar fazer aquilo que mexe com você. Até porque temos filhos... sempre me pergunto será que eu deveria me arriscar dessa forma... mas aí, quando acontece isso, vejo que vale a pena sim... muito!

Você falou no início da entrevista sobre propósito... esse aplicativo é o seu propósito?

Acho que a gente não pode ser muito restrito quando falamos de “propósito”. Propósito precisa ser mais aberto, mais amplo. Além disso, é sempre uma ação. Meu propósito é compartilhar conhecimento. Sempre fiz isso, minha vida toda, mesmo que de outras formas. E fui sempre muito feliz. Mas é claro que compartilhar conhecimento para um grupo que tem uma vulnerabilidade muitas vezes invisível dá bem mais senso de propósito, senso de missão para sua vida. Com certeza. 

Você disse que a dislexia é uma vulnerabilidade invisível? Explique um pouco mais sobre esse conceito.

Eu pergunto em palestras com professores se eles colocariam um cadeirante para correr 100 metros juntos com outros alunos, exigindo o mesmo resultado e performance. Eles falam que claro que não. Falam que seria uma crueldade. Então digo para eles que seria igualmente cruel exigir de uma criança disléxica ler um texto em voz alta para a classe toda.     

A dislexia é uma vulnerabilidade invisível porque não se vê nada: ela não representa uma restrição física ou financeira, nem negligência ou violência, o que seria bem mais fácil de reconhecer em um primeiro momento. No caso da dislexia, a vulnerabilidade se dá porque o disléxico tem um processamento cerebral diferente e, por isso, é colocado de lado no sistema. Como consequência, ele se enxerga como inviável. 

E qual o impacto dessa invisibilidade?

Essa invisibilidade gera uma dificuldade de atendimento. As pessoas não percebem a dimensão do problema. Ontem mesmo divulgamos em nosso site um artigo norte-americano que mostra que a falta de apoio na dislexia está bastante relacionada à criminalidade. O artigo indica que há altos índices de dislexia dentro da população carcerária. É a dislexia que leva a criminalidade? Não. O que leva à criminalidade é a falta de acompanhamento e apoio ao disléxico. Ele se vê como inviável e o destino de quem se enxerga inviável (independentemente do tipo de vulnerabilidade) é, muitas vezes, a criminalidade. 

Sensibilizar as pessoas para esse problema de atendimento é um processo de formiguinha, mas com o qual temos uma grande preocupação em trilhar. Além disso, também é importante mostrar a parte positiva da dislexia. 

Interessante. Pouco se escuta sobre o lado positivo da dislexia. Quais são as vantagens que ela traz?

A dislexia é extremamente positiva. O lado bom é que a mesma configuração mental que atrapalha a compreensão fonológica e a memória de curto prazo também deixa a criatividade mais aguçada e permite uma visão mais ampla das situações. Por isso, quem tem dislexia possui uma capacidade de resolução de problemas acima da média. Não à toa que existe uma maior concentração de disléxicos entre os empreendedores, afinal um empreendedor é um grande resolvedor de problemas. Também há uma grande concentração de disléxicos entre esportistas. Por dois motivos: eles têm uma visão mais aguçada para a estratégica do jogo. Além disso, sem a leitura da escrita, eles se destacam, sentindo-se mais motivados para se dedicar em sua área. Por fim, a dislexia permite o desenvolvimento artístico, pois os disléxicos possuem uma capacidade muito grande de conectar coisas diferentes e ter empatia com o outro. Ou seja, pessoas com dislexia são pessoas das quais o mundo precisa. Não podemos, portanto, sufocá-las por causa do formato acadêmico e do modelo educacional que temos hoje. Não podemos perder essa diversidade de pontos de vistas, fundamentais para promover as mais distintas soluções. 

E quais são seus planos para o futuro?

Primeiramente, a gente quer crescer com a plataforma em termos de impacto. Sobretudo em relação à rede pública de ensino, esse é nosso grande objetivo. Além disso, queremos ampliar a faixa etária do atendimento. Hoje estamos focados na criança de 6 a 7 anos. Queremos ser uma plataforma completa de suporte, disponibilizando ferramentas desde a fase de alfabetização até a fase adulta. Queremos, por exemplo, desenvolver ferramentas de suporte a alunos que estão entrando na faculdade e precisam de ajuda para se organizar com os estudos. Também já estamos falando com empresas para criar oportunidades de desenvolvimento e empregabilidade para pessoas com dislexia. Ambicioso? Talvez, mas vamos chegar lá

E tem alguma característica da cultura brasileira que você acredite que impactou positivamente sua trajetória de vida? Tem algo do “ser brasileiro” que contribui com o seu projeto? 

O que é muito da cultura brasileira é esta coisa de “abraçar a causa”. O brasileiro tem essa sensibilidade. O que eu percebo é que falta conhecimento mas, a partir do momento que você leva informação, as pessoas abrem os olhos e pensam: “Meu, preciso fazer diferente. Preciso mudar alguma coisa.” O brasileiro é cabeça aberta para isso. Embora a gente viva em um momento de polarização, no Brasil e no mundo, eu ainda acho que o brasileiro tem uma grande preocupação com o outro. 

E qual é o lado mais positivo da Nadine? 

É difícil falar da gente... Bom, vou dizer o que as pessoas me falam. Acho que é algo em torno da palavra generosidade. Eu abraço aquilo que me pedem. Me doo para as coisas que acho importante... O problema é que, às vezes, eu acho muita coisa importante e acabo não dando conta. 

Para a gente finalizar, tem algo mais que você gostaria de falar? 

Voltando à história do propósito, quando a gente faz algo que está relacionado consigo mesmo e também é uma experiência marcante de vida, aí a coisa fica bem completa. É bem esse meu caso. Eu vivo isso todos os dias com minha filha.   

#
Beatriz Mello

Beatriz Mello é curiosa por natureza e publicitária e cientista social por profissão. Trabalhou em empresas de mídia como Globosat, Viacom e Discovery. Vive em Berlim, onde, recentemente, especializou-se em Liderança Criativa e fundou a “Tropical Intelligence- Insigthfull Data Storytelling”, uma consultoria de dados para indústria criativa. É uma brasileira de destaque na área de Dados e Conhecimento do Consumidor e escreve sobre outras mulheres que representam positivamente o Brasil.