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Tapetes contadores de histórias

21/03/2019 Larissa da Costa Literatura e Leitura

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Foto: Renato Mangolin 

Como nos contos orientais, em que tapetes voadores levam mágicos de um lugar para o outro, o grupo “Tapetes contadores de histórias”, através do teatro, leva o expectador para o mundo da imaginação. A técnica de contar histórias com recursos de tecidos para formar os cenários e personagens é antiga e recorrente em diversas culturas, tais como gabbehs iranianos, arpilleria andina, quilts da tradição colonial norte-americana e estandartes de palha e pano do nordeste brasileiro.

Essa técnica foi apresentada à então estudante de teatro do Rio de Janeiro em 1998 pelo diretor teatral, contador de histórias e artesão francês  Tarak Hamman, responsável pelo projeto “Raconte-Tapis”, que ministrou uma oficina de contação de histórias para apresentar o projeto fundado por sua mãe, a educadora Clotilde Hamman.

Nesse seminário, conheceram-se não só a técnica, mas também os estudantes que começariam o trabalho no Brasil - Warley Goulart, Cadu Cinelli, Edison Mego, Rosana Reátegui e Andrea Pinheiro.

No início, o grupo trabalhava o acervo adquirido do repertório original francês, que era composto por contos populares de origem diversa da África, Ásia e Europa.

Com o passar do tempo, o grupo sentiu a necessidade de contar histórias de autores brasileiros e começaram a confeccionar seu próprio material, como tapetes, avental, maquetes, livros de pano e painéis. O primeiro autor brasileiro que passou para o repertório do grupo foi Carlos Drummont de Andrade com o espetáculo “Retalhos de Drummont”, com cinco contos e um poema do autor.

O grupo teatral se desenvolveu e, em 2005, estreou o espetáculo “O Rei que ficou cego”, em que os atores encenam eles mesmos a história dentro de um tapete gigante de 12 metros, como se os atores estivessem dentro de uma caverna. A ideia do coordenador Warley Goulart era que atores se transformassem em bonecos no cenário. Com os atores em cima do tapete, as fábulas ganharam novas dimensões. “O Rei que ficou cego” tem como enredo contos populares brasileiros na versão de Ricardo Azevedo. O teatro junto com as técnicas narrativas foi um divisor de águas no trabalho do grupo ao dar mais recursos para se contar as histórias e se mostrou também um bom método para encantar o público.

Em 2006, o projeto dos Tapetes Contadores recebeu o Prêmio Cultura Nota 10, do Governo do Estado do Rio, como uma das 21 ações culturais mais importantes do ano. Convidados pela Editora Global, Cadu Cinelle e Warley Goulart criaram ilustrações de tecido para o livro infantil ‘O congo vem aí’, de Sérgio Capparelli.

Mas adultos também gostam de uma boa história, e o desejo do grupo em busca de novos desafios fez com que, desde 2007, o grupo passasse a encenar espetáculos para adultos. Segundo Warley, fazer teatro para adultos é diferente; eles compartilham em suas peças teatrais problemas e questionamentos dos próprios atores.

© Renato Mangolin 

Desde 2009, o grupo se apropria de elementos teatrais como dança, música ao vivo e luz, renovando, assim, mais uma vez a linguagem do seu trabalho.

Atualmente, o grupo possui um acervo de 65 objetos que correspondem a um repertório que vai desde contos populares de origens diversas (Ásia, África, América do Sul e Europa) a escritores como Ana Maria Machado, Carlos Drummond de Adrade, Jutta Bauer, Manoel de Barros, Marina Colasanti, Peter Bichsel e Ricardo Azevedo. Esses objetos são frutos de uma coletânea que foi criada na França por Tarak Hamman, no Peru pelo projeto Manos que Cuentan e no Brasil pelo próprio grupo.

No ano de 2018, em comemoração aos 20 anos do projeto, esse acervo foi disponibilizado ao público em forma de exposição interativa acompanhada de sessões de história.

Com o reconhecimento do público e crítica, o grupo, além dos espetáculos teatrais, produz eventos, ministra oficinas, participa de festivais, seminários, simpósios e encontros no Brasil, Argentina, Austrália, Benin, Bolívia, Chile, Espanha, México, Nicarágua, Paraguai, Peru e Portugal. No Brasil, já visitou inúmeras cidades e realizou atividades em importantes centros culturais, tais como Caixa Cultural, CCBB, Itaú Cultural, SESCs, Biblioteca Nacional, Instituto Moreira Salles, Centro Cultural Dragão do Mar, Banco do Nordeste, Instituto Ricardo Brennand e Teatro Jorge Amado, dentre outros.

 

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Larissa da Costa

Nascida em Porto Alegre e criada em Vacaria, na Serra Gaúcha, herdou dos seus pais a vontade de viajar. Advogada de formação, escritora de coração, aventureira por emoção, veio para a Europa em 2001 em busca de novos desafios e de seu lugar no mundo. Mãe de duas crianças, já trabalhou em diferentes áreas. Atualmente, escreve no seu blog Brasanha e em três outros, além de ser colaboradora no projeto Carlotas.