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POESIA, RESISTÊNCIA E MEMÓRIA EM LÍNGUA PORTUGUESA

14/02/2020 Cristian Góes Arte e Música

Capa do filme.  (Fonte: distribuição das produtoras).

AvóDezanove e o Segredo do Soviético, do moçambicano João Ribeiro e que conta histórias de Luanda, estreia domingo, 16, no Festival de Cinema Pan-Africano, nos EUA 

Além da imposição de uma língua única, outro traço comum entre os povos tomados pela colonização portuguesa é a resistência banhada de poesia ou, talvez, seja o inverso, poesia que emerge das tantas lutas e banham as memórias de angolanos, cabo-verdianos, guineenses, moçambicanos, são-tomenses, timorenses, brasileiros e outros povos. 

Um exemplo nítido desse processo histórico será visto domingo, 16, no Festival de Cinema Pan-Africano, realizado em Los Angeles, nos Estados Unidos. Trata-se da estreia mundial do filme AvóDezanove e o Segredo do Soviético, do moçambicano João Ribeiro, uma obra que ilumina nossas resistências através dos falares, sonhos, afetos, solidariedade e das ricas imaginações.

AvóDezanove e o Segredo do Soviético não é apenas um filme, mas um caldeirão de múltiplas lusofonias, onde a língua portuguesa, do antigo dominador, passa a ser o lugar de encontro, da diversidade e da luta pela memória dos mais pobres. Além do diretor moçambicano, de equipe técnica e de atores do Brasil, de Portugal e de Moçambique, o filme é uma bela adaptação feita pelo português João Nunes do livro do escritor angolano Ondjaki, que tem o mesmo título. “É a história de um sonho em que algumas crianças decidem lutar para defender o seu lugar, suas casas, contra a destruição imposta pelo governo para construção de um mausoléu em homenagem a um antigo presidente”, conta João Ribeiro em entrevista nos bastidores das gravações.

Este filme busca se aproximar ao máximo do romance de aventura de Ondjaki, uma obra que tem “características muito peculiares, uma mistura de memórias de infância com fantasia onírica, um olhar sobre um momento da história recheado de pequenas estórias", explica João Ribeiro. Em AvóDezanove e o Segredo do Soviético brilham jovens atores como protagonistas, entre eles as crianças Keanu dos Santos, Caio Canda e Thainara Barbosa, além de Ana Magaia, Anabela Adrianopoulos, Adelino Branquinho, Cândida Bila, Mário Mbjaia, Elliot Alex, Dmitry Bogomolov, Filimone Meigos, Flavio Bauraqui e outros. O filme recebeu o apoio financeiro do programa Ibermedia, da Ancine (Brasil) e do Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA), em Portugal; e conta com a produção partilhada de três produtoras: Kanema Produções (Moçambique), Fado Filmes (Portugal) e Grafo Audiovisual (Brasil).

É muito grande a possibilidade de AvóDezanove e o Segredo do Soviético arrebatar os corações dos participantes do 27º Festival de Cinema Pan-Africano edepoisde salas de cinema em vários países. Primeiroporque o livro homônimo de Ondjaki, publicado em 2008 e agora adaptado para o cinema, recebeu intensa e entusiasmada crítica no campo da literatura em quase todo “mundo lusófono”. O romance de Ondjaki foi finalista do Prémio Portugal Telecom e venceu o mais importante prêmio brasileiro, o Jabuti, na categoria de literatura para jovens. E não é apenas isso. João Ribeiro, nascido em Moçambique em 1962, também é autor de outros filmes que têm a poesia como central. A estreia do diretor foi com Fogata, em 1992, produzido a partir de um texto de Mia Couto. Outro filme de Ribeiro, de 2010, também foi realizado a partir da obra O Último Voo do Flamingo, de Mia Couto.

 

João Ribeiro, diretor do filme.  (Fonte: divulgação pessoal).

  

Na casa e na vida das avós - sinopse

Toda a narrativa de AvóDezanove e o Segredo do Soviético se passa em Luanda, Angola, mais precisamente no bairro da Praia do Bispo, em meados dos anos 1980. Segundo a nota da sinopse, tudo acontece numa cidade para além do tempo e da geografia, num bairro não identificado, que ganhaassimcontornos quase mitológicos. É aí que vive Jaki, numa casa cheia de primos regida, com mão férrea, pela AvóAgnette e assombrada pela figura misteriosa da AvóCatarina. A vida do bairro e dos seus castiços moradores gira à volta da construção do Mausoléu de um presidente falecido. Mas esse imponente monumento acaba por ameaçar a vida tranquila que todos levamquando as autoridades anunciam que as casas do bairro têm de ser dinamitadas para a obra ser terminada. Ao mesmo tempo em que isto acontece, a AvóAgnette sofre uma infecção num pé e tem de ser operada, perdendo um dedo e ganhando uma nova alcunha: AvóDezanove. A sua operação inspira Jaki. Tal como foi preciso remover o dedo para salvar a perna, ele e o seu melhor amigo Pi decidem remover o Mausoléu para salvar o bairro. É um plano mirabolante que envolve o uso da dinamite da obra para "desplodir" o monumento. Um plano condenado ao fracasso, não fosse a inesperada intervenção de um soviético cheio de segredos.

Para João Ribeiro, esse filme traz uma história “muito simples com a qual todos nós nos identificarmos. Não que isso facilite a nossa tarefa – a simplicidade tem as suas armadilhas próprias e no universo das crianças essas armadilhas são multiplicadas e amplificadas”, disse o diretor em nota promocional sobre o filme. Vale registrar quealém de João Ribeiro e de João Nunes, também assinam a obra Pedro Bento, diretor de produção; Kika Chirrime, chefe de produção; José António Loureiro, direção de fotografia; Helder Loureiro, iluminação; Pascoal Mate, maquinaria; Artur Pinheiro, direção de arte; Nurodine Daúde, decoração; Gita Cerveira, direção de som; Sara Machado da Graça e Luiggi, figurinos; e Catia Munguamba, caracterização.

 

 

Ondjaki, autor do livro & Livro adaptado para o cinema.  (Fonte: divulgação). 

 

Para além da sinopse. AvóDezanove existe

Em entrevista ao Leitura e Companhia, Ondjaki, autor do romance AvóDezanove e o Segredo do Soviético, diz que a história do livro é meio inventada meio real, que se passa em Luanda, uma cidade das fantásticas histórias. Mas, por exemplo, AvóDezanove existe sim, afirma ele, e é a sua avó, assim também como a AvóCatarina, uma figura misteriosa. É verdade ainda que em Luanda existe o bairro Praia do Bispo e lá o Governo de Angola queria construir um mausoléu para homenagear o primeiro presidente da República, Agostinho Neto. Também é verdade que na praia existia um maluco, o Espuma do Mar. “Crianças, as avós, o doido e outros moradores do bairro juntam-se por amizade, cumplicidade, solidariedade, resistência se juntam para proteger as casas do bairro”, anota Ondjak. Na verdade, o que está em jogo aqui é o apagar a memória do povo e impor – com o mausoléu – uma outra memória, a oficial, explodindo as casas – o lugar da lembrança das pessoas.  

Dentro das tramas tecidas no romance AvóDezanove e o Segredo do Soviético, existem várias outras histórias que se cruzam, como a do Espuma do Mar, que falava coisas sempre misteriosas e curiosas e tinha em casa um jacaré de estimação. Há semprenesta obrauma relação entre vida e morte, medo e esperança, autoritarismo e resistência, liberdade e censura. “Esse trabalho nos liga como nossas memórias, mas não apenas em Angola, também no Brasil, em Moçambique, são nossas histórias. No fundo, cria-se uma ponte cultural muito bonita entre nós”, afirma Ondjak.

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Cristian Góes

Jornalista. Doutor em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com doutorado sanduíche na Universidade do Minho, em Portugal. É mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). Especialista em Gestão Pública (FGV) e em Comunicação da Gestão de Crise (Gama Filho). É membro da Comissão Nacional de Ética dos Jornalistas Brasileiros e professor voluntário de Jornalismo na UFS. (cristiangoes_brasil@yahoo.com.br)