Blog BR+

Os Titãs – A vida até parece o que a gente quer

06/02/2019 Felipe Tadeu Arte e Música

©  Arnaldo Antunes

Eu estava voltando para casa na boa hora do fim de expediente. Peguei o corredor que dava para o prédio dos fundos, de apenas três andares, no arborizado Grajaú do Rio de Janeiro, onde eu morava com um casal amigo, Xandy e Claudia, e, ao passar pela janela do vizinho da vila ao lado, vi um alçapão engatilhado para pegar passarinho. Alpiste lá dentro, tudo pronto para o encarceramento de mais um que sabe voar. Quis nem saber, abri minha bolsa e meti a armadilha de madeira ali dentro. Sou avoado também, ora bolas!

Chegando ao meu quarto, observei a arapuca de forma diferente. Era bonita, artesanal, o gradil era todo feito de varetas de bambu... nem parecia coisa para acabar com a liberdade, sabe? O ser humano é um bicho estranho mesmo. Ao invés de ser grato, é ... ingrato. Pois bem, coloquei o alçapão na estante de livros e fui cuidar da minha vida.

Dias depois, folheando a revista do JB com a programação cultural do fim de semana atrás de uma diversão inteligente para fazer, me deparei com uma foto dos Titãs que eu adorei. A banda da Paulicéia Desvairada ali, enfileirada, com os primeiros olhando meio que para cima. Foi bater o olho naquela imagem clicada por Bob Wolferson e ter uma ideia: cara, recorta essa imagem e cola dentro da arapuca, abre a portinhola e vê como é que fica! Meu irmão, ficou muito doido! Arnaldo, Branco e Nando viraram de uma hora para outra passarinhos engaiolados, prontos para a fuga. Estava criado mais um objeto decorativo do meu quarto.

 ©  Bob Wolfenson

O pessoal, quando ia lá em casa curtir um som e bater papo, quando via o alçapão dos Titãs, achava a peça engraçada. Acho que só o vizinho é que não iria gostar muito, né? Mas então: os meses se passaram, a minha juventude nos anos oitenta sendo devidamente aproveitada com muito show, muito cinema, cervejas, papo-cabeça, acampamento e tal, até que, passando um dia pela porta do Canecão, estava lá, naquele outdoor imenso, o nome dos Titãs como próxima atração. Na época, eu era alucinado pelo disco que eles tinham gravado em Montreux, o “Go Back”! A sonzeira de que eles eram capazes, com a maestria do produtor Liminha (considerado o nono Titã), as letras loucas e cheias de poesia dos caras, principalmente do Arnaldo Antunes, a pancada urbana que eles representavam, como resposta de um país tão jovem, mas ainda governado pelos mais velhos, tudo aquilo me excitava os melhores sentimentos com relação ao futuro que o país ainda iria ter. Tenho que ir a esse show, claro!

Quando chegou o dia de zarpar para o Canecão, já de banho tomado, patchouli etc, me toquei de que poderia dar aquele alçapão de presente para o Arnaldo, afinal, eu sempre fui muito ligado em letras de música e, dentre os titãs todos, era com ele que mais me identificava. Uma amiga minha, Marina, dizia que sempre que ela via Nando Reis no palco, de cabelos enrolados e óculos fundo-de-garrafa, ela se lembrava de mim. Fisicamente era isso mesmo, mas o Arnaldo Antunes, além de ter um texto muito forte, dançava uma coreografia desconcertante, com movimentos quebrados de um fugido do hospício, ousado. Versos como “Ninguém sabe como o plástico é feito/ Ninguém sabe, como o leite é feito, ninguém sabe./ A fórmula da Coca-Cola é segredo/ A da Pepsi também, foi feita por alguém”, da música “Pavimentação”, são muito sagazes. Essa parceria dele com o melhor cantor do grupo, o Paulo Miklos, era a minha preferida do álbum registrado na Suíça em 1988. Eu tinha que dar o alçapão de passarinho para o Arnaldo!

Cheguei ao Canecão e a casa estava abarrotada de gente, malucos de tudo quanto é bairro do Rio, uma vibração maravilhosa. Era bom demais ter mais um espaço assim na cidade, onde já tinha visto tanta música boa, de Alceu Valença a Marina Lima, de Chico Buarque a The Wailers, Gil lançando “Um Banda Um”... e eu ali, com a arapuca na mão, multidão de fãs em apoteose, neguinho grudado um no outro, eu não caibo mais nas roupas que eu cabia (Não vou me Adaptar I Go Back). Todo mundo pulava que nem pipoca e berrava “Nome aos Bois”, numa catarse total, força motriz para grandes mudanças sociais.

Toni Bellotto, Marcelo Frommer, Sérgio Britto, Paulo Miklos, Branco Mello, Nando e Arnaldo tinham uma estratégia de palco muito curiosa, parecida com o esquema de uma partida de vôlei. No palco, eles trocam o tempo todo de posição, em contínua rotatividade, com a óbvia exceção do baterista Charles Gavin, que, da retaguarda, no trono de seus couros e pratos, alimenta a tropa com a energia necessária para incendiar o que for. Como a minha ideia era dar o alçapão de passarinho para o Arnaldo, eu calculei o momento mais adequado para que eu singrasse o mar de gente que estava na minha frente até chegar à borda do tablado.

E fui. Lá foi o irmão do Nando Reis pedindo licença para a galera, rumo ao palco. Era uma situação muito hilária, pois aquilo que parecia impossível aconteceu. Eu consegui chegar ao palanque numa boa, porque as pessoas olhavam para mim, com o braço esticado para cima, segurando a arapuca, e reagiam como se eu estivesse levando o andor de uma santa de barro. Todo mundo foi abrindo uma picada para que eu passasse e chegasse na hora exata em que Arnaldo pegou o microfone no pedestal central. Quando ele começou a cantar, esperei um pouco e entreguei o objeto para ele. Ele espiou rapidinho e o colocou em cima da caixa de som mais próxima, se desvencilhando do bagulho. Continuou soltando o verbo, fez uma segunda música, o pique do concerto lá em cima! Eu fiquei ali pensando: daqui a pouco vem o outro titã; o que ele vai fazer com a minha escultura quando acabar de cantar?

Aí acabou. E ele a levou com ele.

 

#
Felipe Tadeu

Jornalista free-lancer e produtor radiofônico do Radar Brasil, programa bilíngue alemão-português que vai ao ar mensalmente pela Radio Darmstadt, Alemanha. Trabalhou para a rádio e para o site da Deutsche Welle por mais de quinze anos, tendo colaborado também para a Cliquemusic e o Jornal Musical, editados por Tárik de Souza. Escreveu para as revistas alemãs Jazzthetik, Humboldt, Tópicos e Matices, para o Frankfurter Allgemeine Zeitung, além da Radio Hessischer Rundfunk 2 e as publicações brasileiras International Magazine e Outracoisa, dentre outras. É pai do Gustavo.