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OS MUSEUS E A ARTE DE TRANSFORMAR O MUNDO

08/08/2019 Beatriz Mello Mulheres Brasileiras

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Lucimara - Apresenação Museu Vivo. (Foto: Acervo Particular).

Lucimara Letelier nasceu em uma cidade pequena do interior de Minas Gerais, onde não havia museus. O primeiro contato com as artes foi em um curso de pintura e, ali, descobriu a beleza e o poder da arte. Não era só pintar: a cada aula, ela mudava o olhar em relação à vida até descobrir que a arte transforma a sensibilidade, o pensamento e gera possibilidades. Desde cedo, entendeu que precisava ganhar o mundo para que pudesse transformá-lo.

Ao sair de casa para estudar na universidade na cidade de São Paulo, não cursou o que parecia a escolha mais óbvia: história das artes ou artes visuais. Preferiu fazer publicidade e marketing, o que, na época, lhe pareceu mais seguro. Logo percebeu uma oportunidade: promover a arte, utilizando as técnicas de mercado. E passou a atrair e engajar pessoas – e garantir a fidelidade delas – para que consumissem arte ao invés de marcas. Não necessariamente comprando, mas principalmente frequentando museus e centros culturais.

Não foi fácil. A gestão de museus e centro culturais no Brasil era bastante tradicional. Faltava colaboração, abertura para inovação e, principalmente, gestão. Além disso, descobriu que estas instituições definiam a história a ser contada, que impedia a abertura à participação social.  Ainda na faculdade, a primeira tentativa de um trabalho com museu não foi bem compreendida pela escola, por ainda estar muito voltada para o mercado corporativo na época, porém ela não desistiu. Se no Brasil ainda não tinham descoberto esta conexão entre arte e marketing, existiam lugares em que esta gestão já era conhecida. Tornou-se mestre em Administração Cultural pela Universidade de Boston, Estados Unidos e envolveu-se com projetos em que as pessoas acampavam nos museus e usavam seu espaço de modo muito mais intenso do que ela podia imaginar.  Percebeu que isso não transformava apenas as pessoas, mas, também, o museu no seu papel social, tornando-o vivo e em evolução.

Ao voltar ao Brasil, Lucimara quis pôr em prática o que tinha experimentado lá fora. Assim como promover a longevidade econômica de museus e espaços culturais. Trabalhou como consultora, gestora de projetos culturais, curadora de festivais e diretora de importantes centros apoiadores da cultura, como o British Council. 

Em 2017, percebeu que tinha que se reconectar ao propósito. Entendeu que a jovem que queria transformar o mundo tinha se tornado alguém capaz de dar suporte mais amplo às instituições culturais. Foi então que nasceu o Museu Vivo. Como ela mesma afirma, a proposta do Museu Vivo veio para ‘implodir’ uma relação distante entre museus e sociedade e trazer as instituições para mais perto da vida das pessoas. Em entrevista exclusiva para o Blog BRmais, Lucimara Letelier traça um panorama da gestão cultural no país, fala sobre o projeto Museu Vivo e de iniciativas realizadas em parceria com outras organizações como Matchfunding (financiamento coletivo) e HiperMuseu (museu digital) – links no final do texto – e de como concebe o museu ideal para sua filha e para o Brasil.  

 

Lucimara, como nasceu o Museu Vivo?

Entendendo nosso papel como agente de mudança, o Museu Vivo nasce de uma reconexão com meus propósitos, depois de uma imersão no curso Gaia Education e no programa Change Makers da UNESCO,  entendendo nosso papel como agente de mudança. Ele é a soma das experiências que eu tive quando vivi fora do país, acumuladas durante anos trabalhando como consultora e gestora nas instituições culturais no Brasil. Posso dizer que foi uma evolução: no começo, havia uma menina com muita vontade de mudar o mundo, aprendendo tudo. Agora, tem uma mulher, empreendendo e dizendo para a menina que ela pode ficar tranquila. Agora, tenho estrada, uma rede de contatos profissionais, uma rede política e uma trajetória de 20 anos de trabalho. Trabalhei em museus, orquestras, e sei das barreiras e dificuldades deste universo. Lembro que, quando fui gerente de marketing e relacionamento da Orquestra Sinfônica Brasileira e no contato com centros de cultura e seus profissionais, muitas das coisas que eu gostaria de trazer esbarraram em dificuldades de implantação, inovação e colaboração, além de grande defasagem do Brasil em relação a outros países. Mesmo assim foi possível gerar mudanças.

Mas o que exatamente promovia a defasagem que você menciona?

A primeira coisa é que existe um marco legislatório de financiamento da arte no Brasil, diferente dos outros países. Aqui, ele faz com que a arte e a cultura estejam à margem do campo social. O que eu quero dizer com isso? Nos Estado Unidos existe o 501C3, um status que dá a todas as instituições sem fins lucrativos (culturais, ambientais, educacionais, etc.) o direito de receber doações. Já, no Brasil, existe uma separação. A principal captação do campo da cultura e dos museus, por exemplo, é feita através da Lei Rouanet. Já as ONGs de educação, saúde e meio ambiente captam da sociedade e das empresas e vão à luta pela sua causa. Isso acabou gerando um distanciamento da ideia de que cultura é também uma causa e, como tal, seus projetos podem e devem ser captados por meio da sociedade.  

O segundo ponto é de gestão mesmo. Nos Estados Unidos e Canadá, há sempre um gestor executivo, trabalhando em time junto com quem entende da arte. Já no Brasil, as instituições eram tradicionalmente geridas por profissionais da área fim – curadores, maestros, músicos, artistas, historiadores, etc, que trabalham diretamente com a arte – e não da área meio. E isso permitiu uma defasagem de gestão neste campo, o que se estendeu por longos anos. 

Você citou a Lei Rouanet, recentemente alterada. Você acredita que isto impactou a forma como se gere a cultura no país? 

Não houve ainda uma mudança substancial na Lei Rouanet, apesar de movimentos nesta direção. O que tivemos foi uma normativa que muda algumas coisas, mas não a lei. O que tenho observado são outras mudanças muito boas que impactaram positivamente a gestão cultural no Brasil. Como a criação da lei do endowment (Lei nº 13.800, de 4.1.2019), que permite às instituições criarem um fundo patrimonial, similar ao que acontece nos Estados Unidos, o que é muito bom. 

A segunda coisa é que a sociedade hoje não quer mais esperar. As pessoas entram em contato com estes museus, dizendo que querem participar. E eles passaram a reagir. Como? Montando redes online ou desenvolvendo campanhas de crowdfunding, que é o uso de mecanismos colaborativos para financiar museus e outras instituições e causas.

E as empresas, ao mesmo tempo que estão aguardando para ver o que vai acontecer com a Lei Rouanet, já começam a pensar em outras maneiras de interagir com tais instituições. Isso também está mudando.     

E estas mudanças impactam de que maneira o seu trabalho ou o de outros gestores culturais?

Eu trabalho muito com a ideia de crise e oportunidade. Está caindo a Lei Rouanet. Está caindo o sistema patriarcal de poder das instituições. Está caindo a hegemonia de indicações nos museus públicos. E está crescendo o quê? Financiamento colaborativo, participação da sociedade civil nas questões de conteúdo e financiamento. O Museu Vivo segue nesta curva ascendente. E o que fazemos é contribuir para que as instituições enxerguem isso e possam desenvolver capacidades, redes e estratégias necessárias para que sigam por este novo caminho. 

De onde vem o nome Museu Vivo? 

Vivo no sentido de organicidade, transparência e troca com a sociedade. Passei um tempo estudando sustentabilidade em ecovilas, fazendo bioconstrução e entendendo os sistemas vivos. E quis trazer esta cultura para repensar o setor de museus. Pense numa membrana, ela está ali e troca constantemente com o meio em que vive. E o museu, durante anos, deixou de trocar. Principalmente no Brasil. Ele sempre foi muito conceitual e frio. O que estamos dizendo é “Não precisa ser assim. Alô, você (museu) está vivo!”. Então, alguém vindo da cultura indígena entra em um museu e diz que aquele objeto que está exposto em uma caixa deveria ser ritualizado. O museu precisa ouvir isso e possibilitar que a comunidade dance ao redor deste objeto durante a sua exposição. Isso é estar vivo! Quais as consequências do museu não estar mais vivo? Ele não está sendo mais visitado, perdendo relevância, perdendo recursos e, consequentemente, morrendo. Há inúmeros museus que estão deixando de existir de fato.

O que queremos é mostrar que podemos contribuir para que os museus se mantenham vivos. Acreditamos que a sustentabilidade econômica é resultado da sustentabilidade social e cultural destas instituições. 

E como o Museu Vivo atua?

Ele atua em rede, estimulando a integração e a colaboração de diferentes profissionais e o desenvolvimento de projetos inovadores e sustentáveis. Muito similar ao modo como instituições do meio ambiental trabalham. Eu localizo consultores capazes de atuar como agentes de mudança em um determinado setor, no meu caso o museu, e os organizo para que possam trabalhar por projeto. Ao trabalharmos todos juntos, eles também impulsionam a causa do Museu Vivo. Articulamos consultores de branding (gestão de marcas), de cenografia, acessibilidade, direitos humanos, produção, curadoria, sustentabilidade, etc.  

O objetivo principal é promover a mudança. E esta plataforma propicia isso de inúmeras formas: uma delas é criando projetos próprios em conjunto com parceiros com afinidades de propósitos, como o HiperMuseus (criado e desenvolvido com a Inspirações Ilimitadas). Uma segunda maneira é por meio de consultorias para museus. Outro modo é apoiando os profissionais do museu, por meio de coaching (treinamento), facilitações e orientações.

Conte-nos um pouco mais dos projetos desenvolvidos no Museu Vivo?

Hoje, temos dois grandes projetos de iniciativa própria desenvolvidos em rede: MatchFunding BNDS+ (doações de empresas no mesmo valor ou superior ao obtido via financiamento coletivo) idealizado em parceria com a Benfeitoria (plataforma que fomenta uma cultura humanizada e colaborativa), a SITAWI Finanças do Bem (organização social de interesse público pioneira no desenvolvimento de soluções financeiras) e o Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES). E o HiperMuseus, desenvolvido com a Casa Firjan, Inspirações Ilimitadas e Oi Futuro.  Com o MatchFunding, ajudamos a criar um canal específico de ação que é o crowdfunding (ferramentas de arrecadação e financiamento coletivo); e com o HiperMuseus, estamos ajudando a gerar vários canais pois incentivamos a elaboração de protótipos de ação direta dos museus em relevância digital, causas e ativismo e sustentabilidade econômica.

Lucimara - Lançamento HiperMuseus no Oi Futuro. (Foto: Luke Garcia).

O Museu Vivo quer, primeiro, lembrar que museu é causa. Depois, ajudar os museus a deterem as técnicas para promover esta conscientização e sua relevância na sociedade. E, aí, quando a sociedade sair do estágio da conscientização para a ação, ajudar os museus a criarem estes canais de ação pública e sustentabilidade econômica. 

Quem você acredita serem os mais beneficiados por estes projetos? 

O trabalho do Museu Vivo é juntar vários mundos, como o mundo da colaboração, da cultura maker (cultura do faça-você-mesmo) e da economia criativa. Às vezes, eles não são vistos nos museus e nós estamos ajudando para que eles também se identifiquem aí, a exemplo do que acontece com os que trabalham com o meio ambiente, com ODS (Programa de desenvolvimento social da ONU). Fazemos esta conexão para que, juntos, possamos ser agentes de mudança. 

Você comenta sobre a importância da participação da sociedade dentro dos museus para que eles sejam vivos.  Encarado, não como uma instituição do estado, mas, sim, como um espaço público. As pessoas estão preparadas para esta mudança, a de que elas façam parte do museu? Elas conseguem encarar o museu como algo que possam mudar e a ele se integrar?

O primeiro passo é o museu se abrir. Um dos melhores exemplos disso para mim é o Museu de Artes do Rio (MAR). O pessoal da Batalha do Passinho (grupos de dança das comunidades no Rio de Janeiro) começou a utilizar o vão livre do museu para dançar. E o museu começou a trabalhar com eles, chamando-os para entrar e participar, inclusive influenciando diretamente nas exposições. Como grande parte das mostras é sobre o Rio, assim como eles, faz todo sentido promover esta integração. 

Você acha que o incêndio do Museu Nacional impactou a sociedade?

Eu escrevi um artigo para a Comunidade Britânica falando que a queima do museu, em parte, traz uma carga muito pesada, é um símbolo da perda de sua relevância ao longo do tempo. Como consequência, a sociedade deixa de lutar pela preservação daquele espaço. Naquele momento, com o fogo, a mídia foi massivamente mobilizada infelizmente de forma trágica. E os museus ganharam uma projeção para além do próprio nicho. No caso, o Museu Nacional virou um ‘mártir’, representando mudança de modelo de importância em uma agenda nacional pública, justamente porque queimou, provocando um índice de comoção jamais alcançado em outra circunstância. 

Por outro lado, a sociedade brasileira é volátil: a informação passa e outras agendas entram.  Ao incendiar, o museu atraiu a atenção, e a sociedade percebeu que não está prestando atenção em algo que deveria. Mas só que não tem um canal ativando-a. Portanto, a queima do museu gera uma comoção pública, mas não uma ação efetiva da população em defesa dos museus e da cultura. 

 

E como se ativa a sociedade?

O que gera uma ação – e os museus precisam aprender a fazer – é mostrar os canais de participação. Como o crowdfunding com múltiplas campanhas online para que eles possam ser vistos por estes grupos da sociedade. Ou seja: queimou, gerou awareness (conhecimento) e relevância, mas se os museus não ativarem a sociedade, não há nada que a sociedade possa fazer por eles.

Existe algo no campo das ONGs, que é a call to action (chamada para ação). Você pode falar de urgências sociais, você pode falar de demandas o tempo todo, mas a única coisa que vai gerar ação, ou seja, “eu vou lá agora e vou me voluntariar”, ou “vou lá e vou doar dinheiro”, ou  “vou lá agora e vou assinar uma petição” são técnicas específicas que criam canais de contato e mostram os caminhos para a participação. 

Vamos falar agora da Lucimara como pessoa, que tem uma causa, que tem uma filha... Qual o museu que você imagina para a sua filha?

Eu imagino um museu que gere afeto, conexão. Que dê vontade de ficar e voltar. Que gere uma situação de cumplicidade, onde minha filha possa falar “aqui é o meu lugar”.  O museu ideal permite que ela tenha esta sensação de acolhimento, que sinta bem-vinda e ouvida. 

Eu também vejo o museu como parte de sua formação cidadã. Espero que ela encontre ali um espaço de debate social, com informações que a levem a refletir. Que o museu lhe mostre mundos diversos e opiniões diversas. Que tenha uma história e uma memória parte de sua ancestralidade. Onde possa se reconhecer como uma menina que, apesar de loira, vem de uma família afrodescendente. E, ao se identificar com esta narrativa, também conheça a história da escravidão.    

Seria uma mistura de pertencimento, reconhecimento e debate social. Porque o museu pode fazer um papel muito importante no Brasil, complementar a educação. Onde a Clara, minha filha, possa ver uma coisa na escola e ir ao museu e repensá-la numa roda de conversa para criança ou para jovem, por exemplo. Acho que a gente deveria entrar em um museu e nunca sair dele da mesma forma.   

Quais são as características da cultura brasileira que você acredita importantes para sua trajetória? 

Resiliência. Reconhecer de onde eu venho e respeitar quem passou antes de mim. Reconhecer a resistência dos que por muito tempo foram excluídos. Como empreendedora, sou muito resiliente e acredito nesta causa dos museus e da inclusão. Museu Vivo é inclusão. 

Eu trabalhei por muitos anos em empresas e instituições internacionais, estudei em universidades estrangeiras. Via e identificava nelas um lado brilhando de desenvolvimento da arte e da cultura do qual eu quis fazer parte. E conquistei isso. 

O que mudou é que, agora, eu quero fazer aqui no Brasil. Quero que este desenvolvimento brilhante com a arte e cultura aconteça aqui e floresça. Eu percebi que sou uma pessoa com muitos privilégios e que eu não ia conseguir viver em paz se eu não devolvesse de alguma forma para a sociedade os resultados que estes privilégios me proporcionaram.  

 

Faça parte você também do HiperMuseus! Participe do SEMINÁRIO INTERNACIONAL HIPERMUSEUS, na CASA FIRJAN, 20 de Agosto. Vagas Limitadas. 

Inscreva-se aqui até o dia 16 de agosto. 

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Beatriz Mello

Beatriz Mello é curiosa por natureza e publicitária e cientista social por profissão. Trabalhou em empresas de mídia como Globosat, Viacom e Discovery. Vive em Berlim, onde, recentemente, especializou-se em Liderança Criativa e fundou a “Tropical Intelligence- Insigthfull Data Storytelling”, uma consultoria de dados para indústria criativa. É uma brasileira de destaque na área de Dados e Conhecimento do Consumidor e escreve sobre outras mulheres que representam positivamente o Brasil.