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O lado feminino positivo do Brasil

21/12/2018 Beatriz Mello Educação

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© Beatriz Mello

O Brasil está cheio de mulheres incríveis e com trajetórias inspiradoras e motivadoras, mulheres que representam a diversidade ainda pouco explorada de lados positivos do Brasil e nos permitem reconhecer e até mesmo replicar o melhor da nossa brasilidade.

Presentes e atuantes não só no Brasil, mas também em diversas partes do mundo, tais mulheres despertaram minha curiosidade em conhecer suas histórias, compreender o impacto causado pela atuação de cada uma delas em suas áreas de expertise e, principalmente, como o fato de viver ou ter vivido no Brasil e fazer parte da cultura brasileira teve impacto positivo em sua trajetória.

Investigações constantes acerca destes talentos femininos brasileiros, sua relação com a própria nacionalidade e a repercussão disso tanto na sociedade, como na constituição do sentimento de “ser brasileiro” serão o combustível das postagens que farei aqui no blog.

© Stella Reis / Reprodução site Unicamp

Destaco hoje o trabalho da Professora Dra. Joana D’arc Félix de Sousa. PhD em Química pela Harvard, esta mulher nascida em Franca, interior de São Paulo, aprendeu a ler aos 3 anos de idade e entrou em uma das mais prestigiadas faculdades do país (Unicamp) aos 14. Aos 24 anos, já tinha mestrado e doutorado concluídos. O fato de ser brasileira, mulher, negra e ter uma origem humilde (seu pai trabalhava em um curtume e sua mãe era empregada doméstica) foi, por diversas vezes, obstáculo para alçar voos. Mas resiliência faz parte do nosso melhor perfil e, com certeza, é parte do melhor perfil da Joana também. Segundo seus depoimentos em entrevistas, a cientista soube transformar obstáculos em trampolim. Ser brasileira contribuiu, por exemplo, na definição do tema do seu trabalho em Harvard, já que sua pesquisa estava relacionada a um problema do país – mais especificamente, a um problema com que ela tinha familiaridade desde a infância: o processo químico nos curtumes (processo de transformar pele em couro). 

Hoje, Joana é professora e coordenadora do curso técnico em curtimento na ETEC Prof. Carmelino Corrêa Junior (Centro Paula Souza) e tem mais de 70 prêmios na área de Química e Sustentabilidade. Foi responsável por desenvolver patentes e inovar, por exemplo, no uso de produtos orgânicos naturais e menos poluentes, como folhas de goiaba e borra de café, para curar o couro. 

Em 2017, a cientista química ganhou o prêmio de Personalidade do ano no evento “Faz Diferença” promovido pelo jornal O Globo. Como educadora e cientista, disse em entrevistas que acredita na educação e ciência como agente transformador de vidas. Ela mesma é uma prova do poder catalizador desta fórmula.

Joana diz promover nos seus alunos o senso investigativo e despertar sua curiosidade. Acredita ser fundamental para jovens a compreensão de que estudar e pensar deve ir além da sala de aula e de que, quanto mais cedo isso acontecer, melhor. Ela defende, por exemplo, que a iniciação científica e bolsa de estudos para pesquisa comece já no ensino médio e nas escolas técnicas.

Um de seus projetos mais inovadores em parceria com seus alunos está exposto no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Trata-se do desenvolvimento de pele humana artificial a partir da pele suína. Acredita-se que este projeto seja uma solução em resposta aos problemas de falta de pele humana em transplantes no Brasil e à necessidade de barateamento dos custos. 

A professora e pesquisadora também cunhou o termo “Curteempreendedorismo” e incentiva seus alunos a criar, inovar e empreender com peles exóticas comestíveis, tais como peles de galinha ou peles de tilápia. 

Como classificar a contribuição da cultura brasileira na vida desta talentosa pesquisadora? Criativa, já que promove a inovação? Flexível, pois cria a partir do que se tem disponível? Adaptável, para dar conta das mudanças constantes que aparecem ao longo da sua vida? Colorida, afinal transforma peles em alegres peças de couro?  Representante da diversidade da fauna e flora, o que talvez a tenha inspirado a desenvolver projetos na área de química e sustentabilidade?

Arrisco dizer que o impacto promovido pelos anos de trabalho de Joana seja a soma de todos esses e outros aspectos positivos do Brasil. 

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Beatriz Mello

Beatriz Mello é curiosa por natureza e publicitária e cientista social por profissão. Trabalhou em empresas de mídia como Globosat, Viacom e Discovery. Vive em Berlim, onde, recentemente, especializou-se em Liderança Criativa e fundou a “Tropical Intelligence- Insigthfull Data Storytelling”, uma consultoria de dados para indústria criativa. É uma brasileira de destaque na área de Dados e Conhecimento do Consumidor e escreve sobre outras mulheres que representam positivamente o Brasil.