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Mestre Abaetê e a Capoeira em amplo espectro

28/05/2019 Fernanda Krüger Raízes Culturais

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Foto: Pintura tridimensional, de George Barbosa. Acervo pessoal de Ruy Abaetê.

Você já deve ter ouvido falar em capoeira, mas sabe como ela chegou ao Brasil e como tem se difundido por outros países?

A capoeira é uma “arte que combina dança, luta, teatro e música. Foi documentada inicialmente entre africanos e crioulos escravizados nas cidades portuárias como Rio de Janeiro e Salvador da Bahia. É  a única arte marcial com ancestralidade africana praticada em vários países”. (Fonte: filme Jogo de Corpo).

Um mestre pernambucano

Devido à popularidade crescente da capoeira no exterior, é possível encontrar representantes dela em  diferentes partes do mundo. Foi assim que chegamos até o trabalho de um mestre pernambucano que vive na Alemanha. 

Nascido em Recife, Ruy da Silva Santos, também conhecido como Mestre Ruy Abaetê, tem uma longa trajetória com a capoeira e vem desenvolvendo um belo trabalho sociopedagógico nessa área.

Seu interesse pela capoeira surgiu ainda quando garoto, enquanto brincava com os amigos na rua e assistia a filmes de lutas marciais, e se estendeu à medida que a capoeira se fazia, casualmente, presente em sua vida.

Na linha do tempo

A história de Ruy com a capoeira começa entre 1974 e 1975: ao assistir a uma apresentação (roda na rua) do Mestre Paulo Guiné, Ruy ficou ainda mais encantado com essa arte marcial popular no Brasil.

Nos anos 1980, seu contato com a capoeira aconteceu durante apresentações de danças folclóricas na escola Sargento Camargo (frevo e capoeira). Ainda nessa década, por influência do primo José Carlos, iniciou aulas com o contramestre Pesqueiro (aluno de Mestre Galvão).  Graduou-se finalmente como Mestre de Capoeira em setembro de 1998.

Pessoas como os professores Ricardo, Edimilson e Jorge Linguado (Abadá Capoeira) também tiveram influência na trajetória de Ruy, estimulando e apoiando seu processo de aprendizagem.  Em parceria com seus alunos Marco Pequeno, Emerson Pineca e Edson Sabiá, Ruy criou o Grupo Abaetê de Capoeira no ano de 1995 em Jaboatão dos Guararapes (Pernambuco). A palavra “abaetê” vem do tupi-guarani e significa “homem de honra”. 

Em 1997, Ruy seguiu dando aulas de capoeira no Centro de Artes Marciais Caminhos Suaves e também em outros clubes e associações da cidade.

Ele foi sócio-fundador e presidente do Conselho Fiscal da Federação Pernambucana Cultural de Capoeira (FEPECULCA, 2001), a qual é filiada à Confederação Brasileira de Capoeira (CBC).

A FEPECULCA visava a preservar, difundir, incentivar, ensinar, regulamentar e instituir a prática da capoeira no estado de Pernambuco por meio de cursos, divulgação de informações e promoção de eventos. Ruy Abaetê fez parte da FEPECULCA até 2004.

Como uma de suas conquistas no período, destacamos aqui o 1° Batizado de Capoeira de alunos especiais do estado de Pernambuco - evento organizado pelo Mestre Ruy Abaetê em parceria com Eraldo Gabriel de Souza (Mestre Beija-Flor), que foi realizado no ano de 2003 na Faculdade Fransinetti do Recife (FAFIRE).

Na FAFIRE,  Ruy atuou ainda como professor de capoeira para alunos dos cursos de Pedagogia, Filosofia, Turismo, Administração e Letras (2003-2006).

A capoeira no exterior pelas mãos de Mestre Abaetê

Após anos de atividade no Brasil, havia chegado a hora de a capoeira ganhar outros horizontes. 

Em 2006, Ruy Abaetê se mudou para Alemanha, onde formou grupos de alunos nas cidades de Freiburg e Endingen. 

Na Europa, recebeu um convite de honra da Federação Internacional de Artes Marciais (IMAF) para participar do Simpósio Internacional Sõ-Gõ-Budõ Taikai (2009). Reunindo mestres em artes marciais de diferentes países, esse seminário visava promover o ensino teórico e prático de modalidades variadas de lutas, tais como Aikido, Caratê, Capoeira, Tai Chi Chuan, Boxe Tailandês e outras, formalizando um intercâmbio entre as mesmas.

Tempos depois, Ruy levou a capoeira para terras ainda mais distantes, mais especificamente para Maputo, capital de Moçambique. Lá, ele participou de diversas atividades em escolas e associações, entre elas a Escola Francesa de Maputo e o Colégio Arco-Íris (2013-2017).

Na Escola Francesa de Maputo, Ruy realizou atividades extracurriculares com alunos de 4 a 13 anos. Também integrou um grupo com mais três professores e fez parte do Projeto Reciclasom, cuja pedagogia propunha a produção de instrumentos musicais a partir de objetos descartados no lixo.

No Colégio Arco-Íris, instituição na qual a capoeira fazia parte da grade curricular, o pernambucano foi instrutor.  Seu trabalho em Moçambique, no entanto, não ficou restrito à esfera escolar. Representando o Grupo Abaetê de Capoeira, realizou apresentações em espaços como Franco Moçambicano e Fema, e, em certa ocasião, seu trabalho foi prestigiado pela organização Médicos sem Fronteiras da Suíça (MSF Suíça).

Preocupado com a formação do indivíduo como cidadão e com o bem-estar coletivo, Ruy engajou-se ainda em diversas iniciativas pessoais enquanto viveu na África.

Contando sempre com a colaboração das famílias de seus alunos, realizou várias ações sociais com o objetivo de angariar doações de roupas, de itens de higiene pessoal e produtos de limpeza para distribuir em instituições voltadas ao atendimento de órfãos e portadores de HIV (Lar das Irmãs de Caridade), de jovens carentes (Instituição Maria Clara) e de crianças com necessidades especiais (Dom Orione), por exemplo.

 

 

Fotos: F. Krüger

A capoeira no contexto da diversidade cultural e como material paradidático

A versatilidade da capoeira e do trabalho de Ruy Abaetê também pode ser vista no livro “Rhythmusspiele der Welt – Musikalische Spielmodelle für die Rhythmusarbeit in Gruppen” (Jogos Rítmicos Mundiais – Modelos de Jogos Musicais para Trabalhos Rítmicos em Grupos), do alemão Rolf Grillo.

Com um capítulo dedicado exclusivamente ao Maculelê, a obra destaca uma parte do trabalho de Mestre Abaetê. São 13 páginas de textos e imagens, mais um CD e um DVD, com informações detalhadas sobre o contexto cultural do Maculelê e com letras de músicas e o passo a passo dos movimentos, além de instruções para o planejamento de atividades que envolvem concentração, coordenação e comunicação.

Foto: F. Krüger

Hoje em dia...

Atualmente, Ruy vive com a esposa e o filho em Frankfurt a.M. Seu trabalho pode ser conferido em escolas locais e iniciativas que promovem a diversidade cultural e linguística na região.

Sua pedagogia ligada ao ensino da capoeira a jovens e crianças busca a interação de pais e filhos, a fabricação de instrumentos e também o envolvimento dos participantes em projetos sociais ou comunitários. Trata-se, pois, de uma potente ferramenta não apenas para a prática esportiva em família e para a formação do indivíduo como um cidadão, mas também para atividades desenvolvidas em língua portuguesa.

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Fernanda Krüger

Fundadora do br+ Foco no lado positivo do Brasil!® e Idealizadora da iniciativa pioneira BRmais e o Português como Língua de Herança no Ensino Globalizado©