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Fundação Casa Grande - Memorial do Homem Kariri

03/05/2019 Larissa da Costa Terceiro Setor e Cidadania

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Foto: Reprodução trecho vídeo YouTube

Quando Alemberg Quindis e sua esposa Rosiane Limaverde criaram, em 1992, um memorial com objetos que contavam a história da região do Kariri, mais especificamente na cidade de Nova Olinda (CE), não imaginavam que essa pequena casa do século XVIII pertencente ao avô de Alemberg fosse dar início a uma escola diferente, o que é hoje a Fundação Casa Grande, uma escola de vivência.

É designada como escola de vivência porque não segue os padrões de uma escola estatal. Na Fundação Casa Grande, fala-se em gestão cultural e ela ensina às crianças o que o ambiente oferece. 

Segundo Alemberg, a ferramenta básica do gestor cultural é o improviso - é a realidade que oferecerá o que se tem a aprender. O grande desafio de formar o gestor não se encontra em pensar sobre uma escola, mas sim no espaço; não se encontra em pensar sobre a formação, mas na vivência – ou seja, encontra-se em identificar as condições do lugar e aprender com elas.

Foi assim que, de tanto as crianças visitarem o pequeno memorial fundado pelo casal, passaram espontaneamente a apresentar aos visitantes locais o que o museu oferecia, repetindo o que haviam aprendido por meio da observação. A partir da entusiasta participação das crianças no memorial, a instituição formalizou sua colaboração e cada vez mais as crianças passaram a, por exemplo, receber os visitantes pela instituição, cuidar da “gibiteca” e propor atividades e brincadeiras. “A meta é empoderar a criança desde pequena”, explica o fundador da instituição.

A partir da demanda das crianças e adolescentes que começaram a frequentar a Fundação, novas atividades foram desenvolvidas, sempre com base na criatividade e talento dos interessados. Dessa forma, criaram-se oficinas de vídeos, música, rádio e teatro e atividades esportivas, de formação profissional e conscientização ambiental.

Todas as atividades estão disponíveis para todos e cada um escolhe o que quer fazer. Os líderes de cada grupo são naturalmente escolhidos pelos demais, de acordo com o engajamento próprio. O conhecimento é passado dos jovens às criança, os mais velhos ensinam aos mais novos e os adultos supervisionam as atividades.

À medida que vão crescendo, as crianças se envolvem em atividades mais complexas, como a produção de vídeos ou fotos ou na realização de programas de rádio ou de televisão. “Damos instrumentos profissionais para ludicidade infantil e mais para frente eles passam a descobrir que estas são ferramentas.”

Muitos dos jovens que ali se formaram trabalham, hoje, na área de produção cultural - como técnicos de som e produtores de filmes.

Além destas ações, a instituição apoia também a geração de renda relacionada ao turismo. A ação enfoca o fortalecimento das mulheres, que são donas-de-casa e mães das crianças que frequentam o espaço. Alemberg estima que entre 70 a 90 mil turistas viajem para a região e, para atender a este público, a resposta foi o turismo comunitário, com as famílias recebendo hóspedes em suas casas e os jovens se dedicando a serviços de “receptivo turístico”.

A Fundação se tornou um espaço educativo da cidade e mantém parcerias com as escolas da rede municipal, que realizam, por exemplo, excursões com seus alunos para explorar o campo arqueológico da Fundação ou assistir às peças de teatro do Teatro Violeta Arrares – Engenho de Artes Cênicas.

A Fundação Casa Grande já foi várias vezes objeto de pesquisa de mestrado, em que foram avaliados desde o modo de formação até os impactos trazidos para a sociedade. A conclusão é que a formação com base na experiência traz aos jovens o exercício da autonomia e construção de responsabilidade. Os jovens saem da instituição com uma formação profissional e oportunidade de trabalho e empreendedorismo. Além disso, os impactos sociais são medidos pelo estímulo ao turismo na região e geração de renda para muitas famílias que, anteriormente, não tinham perspectivas. O trabalho da Fundação tem sido reconhecido e premiado por diversas instituições, tais como o Ministério da Cultura, que lhe concedeu a “Ordem do Mérito Cultural” em 2004, e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), que lhe concedeu o “Prêmio UNICEF Criatividade Patativa do Assaré” em 2002. 

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Larissa da Costa

Nascida em Porto Alegre e criada em Vacaria, na Serra Gaúcha, herdou dos seus pais a vontade de viajar. Advogada de formação, escritora de coração, aventureira por emoção, veio para a Europa em 2001 em busca de novos desafios e de seu lugar no mundo. Mãe de duas crianças, já trabalhou em diferentes áreas. Atualmente, escreve no seu blog Brasanha e em três outros, além de ser colaboradora no projeto Carlotas.