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Dislexia e Bilinguismo

11/04/2018 Nadine Heisler Educação

São muitas as questões que envolvem a dislexia em crianças bilíngues e, em muitas delas, os especialistas não são unânimes em suas conclusões. Como exemplo, uma das principais controvérsias no meio acadêmico está relacionada à vantagem que as crianças que crescem em ambiente bilíngue tenderiam a ter em termos de desenvolvimento cerebral. Alguns especialistas enxergam um benefício no fato de uma criança ser bilíngue, mas muitos não identificam isso como uma vantagem real, sob o ponto de vista do desenvolvimento do cérebro.

 

OS SINAIS DE DISLEXIA APARECEM MAIS TARDE EM CRIANÇAS BILÍNGUES?

O que comumente acontece com as crianças bilíngues é que as dificuldades na aquisição da leitura e escrita costumam ser responsabilizadas pelo fato de as crianças estarem sendo alfabetizadas em um idioma diferente do materno. Com isso, se demora mais tempo para identificar que a dificuldade não é advinda do fato de ser um segundo idioma, mas sim uma indicação de dislexia.

 

EXISTEM IDIOMAS MAIS FÁCEIS DE SE APRENDER?

As línguas são classificadas de acordo com sua complexidade de transparentes a opacas. Línguas transparentes ou “um para um” são aquelas em que, em quase sua totalidade, cada fonema corresponde a um grafema (e vice-versa), enquanto que, nas línguas opacas, um mesmo fonema pode corresponder a mais de um grafema ou um grafema pode corresponder a vários fonemas. O inglês, por exemplo, considerado uma das línguas mais opacas, tem 120 grafemas que correspondem a 44 fonemas (Davies and Richie, 2003). As línguas mais transparentes (finlandês, italiano, húngaro, p. ex.) tendem a ser mais fáceis para as pessoas com dislexia, enquanto que as línguas opacas (inglês e francês) apresentam maior dificuldade. O português, embora não seja tão opaco como o inglês, é considerado uma língua opaca (Seymour’s 2005). 

Temos também o conceito de ortografia opaca e transparente, aplicando-se às palavras o mesmo raciocínio aplicado à língua. Neste contexto, estudos verificaram que, quanto mais opaca a grafia, maior a incidência de erro ortográfico por parte dos alunos com dislexia.

 

 

APRENDER A LER EM DIFERENTES LÍNGUAS AFETA O CÉREBRO?

O aprendizado das línguas transparentes forma rotas mais visuais no cérebro, no entanto muitos fatores podem afetar estas questões, sendo mais complicado do que pode parecer.

 

É MAIS DIFÍCIL PARA UMA CRIANÇA COM DISLEXIA APRENDER UM SEGUNDO IDIOMA?

Aqui temos muitas variáveis. É mais difícil, sim, mas também irá depender de como o segundo idioma será ensinado, se ele é uma língua transparente ou opaca e o quanto de contato a criança tem com a língua.

 

É MAIS FÁCIL SE A CRIANÇA FOR ALFABETIZADA PRIMEIRO EM UMA LÍNGUA E DEPOIS NA OUTRA?

Estudos mostram que é mais fácil se a alfabetização acontecer ao mesmo tempo no idioma materno e no segundo idioma (normalmente falado na escola). Estes estudos mostram que a criança tira proveito dos aprendizados em uma das línguas (normalmente a materna) e os utiliza para facilitar o aprendizado da segunda língua (Goldenberg, 2008; Mortimore et al., 2012).

 

COMO DIAGNOSTICAR DISLEXIA EM CRIANÇAS BILÍNGUES?

O teste para avaliar a dislexia deve ser feito nas duas línguas. Se a criança apresentar dificuldade apenas em uma, outras possibilidades devem ser avaliadas. A criança disléxica terá dificuldade em ambos os idiomas. Como a dislexia tem um forte fator genético, é importante avaliar o histórico familiar também para se fechar um diagnóstico. Alguns aspectos da dislexia podem ser menos evidentes em línguas transparentes, mas diferenças na memória de trabalho e processamento fonológico se mantêm.

 

COMO AJUDAR A CRIANÇA BILÍNGUE COM DISLEXIA?

Tanto a criança bilíngue como a monolíngue disléxica deve recorrer a trabalhos de apoio fonológicos e psicopedagógicos a fim de construir sua estratégia de aprendizado no período de alfabetização. No caso das crianças bilíngues, o ideal seria ter o apoio nas duas línguas, o que nem sempre é possível devido à dificuldade de se encontrar profissionais preparados para atuarem com crianças disléxicas que sejam também bilíngues e nas mesmas línguas que a criança necessita.

 

VOCÊ SABIA?

 

 

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Crédito de imagens: Reprodução/ site Domlexia

 

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Nadine Heisler

Com mais de 25 anos de experiência em educação e treinamento, já trabalhou para grandes corporações, mas seu negócio é empreender em educação! Acredita no empoderamento pelo conhecimento e na melhoria de qualidade de vida pelo encontro de significado no dia a dia. Na sua formação, já passou pela Unicamp, ESPM, Emerson College, School of the Museum of Fine Arts Boston, Penn University e Columbia University. O projeto Domlexia a levou a ser uma das 10 finalistas do Global Impact Challenge Brazil 2017 da Singularity University e a participação no Desafio StartED da Fundanção Lemann e Artemisia. Mãe de 4 filhas, apaixonada por Florianópolis, adora uma casa cheia e conversas interessantes.