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Criatividade, Liderança & Equidade tipo exportação

28/01/2019 Beatriz Mello Mulheres Brasileiras

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© Reprodução/ Divulgação Tribal

Desde muito pequena, Laura Chiavone sempre teve este talento de mobilizar pessoas por uma causa. Queria ser diplomata quando decidiu estudar Ciências Sociais. Não foi bem isso que aconteceu. Ela transformou-se em uma das grandes lideranças brasileiras na publicidade mundial. Hoje, vive em Nova Iorque com seu filho Benjamim e está a cargo da equipe de planejamento de uma das maiores agências digitais do mundo, a Tribal. Laura também desenvolveu e coordena o “Like a Boss”, um curso online de liderança focada no público feminino.

Alguém pode pensar que sua trajetória foi obra do destino. Mero engano. Há 15 anos, Laura tomou a decisão de tomar as rédeas da sua própria carreira. Enfrentou barreiras. Várias. Assédio moral e ameaça de estupro em seu ambiente de trabalho estão entre seus momentos mais difíceis. Porém, afirma que estes acontecimentos a tornaram mais forte. Eles inclusive foram fundamentais para que ela assumisse para si mesma que queria, e deveria, deixar um legado. Para chegar até aqui, Laura foi incentivada pela escola e por seus pais: “eu sempre cresci acreditando em mim mesma”. Inspirou-se em sua mãe, um exemplo de mulher executiva. Contou também com o seu talento natural e sua incrível capacidade de planejar a longo prazo e manter sempre um sorriso cativante no rosto. 

Hoje, além de seu talento profissional reconhecido internacionalmente, atua fortemente como defensora da equidade de oportunidades e de gênero na publicidade brasileira e no mundo, causa pela qual recebeu em 2018 o prêmio Women to Watch Brasil, que destaca as mulheres mais importantes que atuam em agências, anunciantes e veículos. Sua carreira fez com que se tornasse referência no assunto. Nos bastidores, recebe pedidos de ajuda de mulheres que, mesmo sem a conhecer, depositam nela toda a confiança para que ela ajude a resolver problemas como assédio no trabalho. A publicitária sabe de sua responsabilidade e usa o reconhecimento que tem no mercado para, junto com outras pessoas do meio, fazer pressão contra más práticas que acontecem no cotidiano de agências e veículos.

Em entrevista exclusiva para o blog br+, Laura nos conta sobre suas principais conquistas, principais legados e futuros projetos. 

Laura, você comentou que desde muito cedo enfrentou obstáculos por ser mulher e, mais recentemente, por ser estrangeira e latina trabalhando nos Estados Unidos. Conte-nos como você derruba estas barreiras na prática? 

Uma vez ouvi a frase que “doçura tem dentes”. Sorrir, dar bom dia, dar boa tarde e boa noite são formas de mostrar que você está presente e isso quebra barreiras. Acredito que, como líder, temos o papel de engajar as pessoas, mostrando que nos importamos com elas. Você faz as pessoas se sentirem mais confiantes quando demonstra que está lá e isso abre portas e janelas. 

Outra coisa que eu faço na prática é estar sempre muito atenta às oportunidades às quais eu possa agregar valor. Eu nunca sei onde elas estão e até onde vão me levar, mas estou sempre atenta quando aparecem causas na minha frente nas quais eu acredite. Aí, eu abraço mesmo. Geralmente, eu faço a diferença usando uma característica minha, bem humana, de juntar as pessoas pela causa. Eu monto grupos de trabalhos como, por exemplo, grupos para dar mais visibilidade à mulher brasileira que está trabalhando lá fora do país como no projeto “Find the Women”.

Nos conte um pouco mais da sua atuação neste projeto? 

Eu cheguei em Nova York em abril de 2017 e incorporei a minha rotina a leitura mais assídua dos veículos de marketing e publicidade daqui. Um dia, eu me deparei com uma matéria no Advertising Ad (um dos veículos de publicidade mais importantes do mundo) cujo título dizia que o Brasil era a nova Suécia para a criatividade (em uma referência ao reconhecido talento criativo sueco exportado para todo o mundo). O artigo falava sobre os profissionais brasileiros de publicidades que haviam mudado recentemente para os Estados Unidos. Foram citados 20 nomes. 19 nomes de homens brasileiros pertencentes à indústria criativa e o Trump. Nenhuma mulher tinha sido citada. Zero. Achei uma barbaridade. Conhecia várias mulheres que trabalhavam em publicidade e atuavam no mercado criativo americano, inclusive como líderes de empresas renomadas. Como assim não havia nenhuma mulher na lista? Fiquei indignada. 

Sabemos que há um viés cultural na publicidade. Infelizmente, é automático pensar em homens neste mercado, por isso não acredito que a jornalista que escreveu a matéria tenha feito isso de propósito. Achei que deveria ajudá-la a perceber este viés e mudar esta história no futuro. De forma prática e simples, criei um arquivo com uma lista com nomes de mulheres que atuavam neste mercado e que moravam fora do país. Mandei para amigos publicitários e pedi para que completassem com outros nomes de mulheres que eles conheciam e atuavam fora, ou seja, acabei fazendo o que faço sempre: mobilizar e juntar pessoas pela causa. Minha meta era conseguir 50 nomes e mandar a lista para jornalistas, incluindo a que tinha escrito a matéria. Assim, em uma próxima oportunidade, eles teriam opções e lembrariam de incluir mulheres. Para minha surpresa, esta lista se espalhou nas redes sociais rapidamente e esta ação simples virou um projeto gigante. Em poucos dias, tinha atingido mais de 300 nomes. O negócio ficou tão grande que, antes que eu pudesse procurar os jornalistas com a lista, os próprios jornalistas me procuraram. A BBC fez uma matéria gigante e, como é uma agência de notícias, esta matéria foi reproduzida por vários veículos. Lembro de um dia ter visto a matéria em todas as capas dos principais portais de notícias brasileiros com o título “Quem são as mulheres que estão fazendo sucesso fora do Brasil”. Um sucesso! Afinal, o principal objetivo do projeto, que era promover a visibilidade das mulheres do mercado criativo, foi atingido. O sucesso foi tanto que até hoje mulheres de outros países e mercados me procuram querendo copiar o projeto. Recentemente, uma advogada de Dubai me ligou, pois queria fazer a mesma coisa em seu país. 

Você comentou que o projeto despertou o interesse de pessoas de diferentes países e diferentes indústrias que enfrentavam a mesma dificuldade. Na sua opinião, esta diferença de oportunidade e visibilidade entre homens e mulheres é um problema mundial ou mais específico em relação às mulheres brasileiras?  

É um problema mundial, mas o Brasil está um pouco atrás em relação a alguns países do hemisfério norte, por exemplo. As pessoas resolveram acreditar que este é um problema irrelevante, inexistente ou “mimimi”. Existe uma barreira gigante de aceitação. Ainda estamos na fase de mostrar empiricamente que o problema é real. Aqui nos Estados Unidos, por exemplo, já há uma aceitação do problema. Eles estão em fase de buscar a solução para o problema.

Você ganhou muitos prêmios na sua carreira publicitária como planejadora. Recentemente, conquistou o prêmio Women to Watch Brasil como uma das mulheres de maior destaque que atuam em agências, anunciantes e veículos. A que você atribuiu este reconhecimento sobre o seu trabalho? 

Tenho uma visão diferente do que deve ser o meu trabalho hoje. Atualmente, ele é muito mais do que entrego para os clientes da agência de publicidade em que trabalho. Hoje, considero toda a interação que eu faço no meu dia e as pessoas com que eu interajo como parte integrante do meu trabalho. É claro que a qualidade do serviço para o cliente é importante, mas hoje entendo que existe também uma responsabilidade com a comunidade da qual eu faço parte. A liderança te dá esta oportunidade de, para o bem ou para o mal, servir de exemplo. Pode ser o pior exemplo do mundo, mas o fato é que as pessoas vão olhar sempre o que você faz. 

Outra coisa que eu faço é utilizar minhas oportunidades de fala pública para dividir assuntos que eu acho relevantes. Então, aproveito todas as palestras, entrevistas ou discursos para abordar temas que acredito possam impactar a vida das pessoas. Por exemplo, quando ganhei o “Women to Watch”, passei duas semanas ensaiando e treinando o que eu gostaria de falar. Não queria só agradecer. Isso tento fazer com frequência no meu dia a dia. Queria que o discurso levasse pessoas a refletir, então, fiz alguns pedidos. Em um deles, lembrei que estávamos no exato momento das eleições para o maior prêmio do mercado publicitário brasileiro e que gostaria muito de ver uma maior equidade entre homens e mulheres nas indicações. Acredito que o crédito do que aconteceu depois da minha fala não seja meu; é das pessoas que efetivamente refletiram sobre o assunto. Mas o discurso teve impacto: este foi o ano com maior número de indicações e premiações de mulheres da história do Prêmio.

E você acredita que algo está mudando? Pelo menos no ambiente em que você atua? 

Sim, mudando geral. Acho que, inclusive, o incômodo gerado por algumas campanhas publicitárias como a da Gillette, por exemplo, mostra o tamanho da mudança. O tamanho da reação negativa com conteúdos que promovem a equidade e diversidade e até ameaças de boicote das marcas mostram o tamanho da mudança que está acontecendo. 

Quando eu era mais nova, assistente em uma agência, o vice-Presidente gritava todos os dias na frente de todo mundo: “Gostosa, hoje vou te comer!”. Isso não acontece mais nem no Brasil. É impensável nos dias de hoje.

Voltando aos prêmios que você ganhou. O tipo de prêmio mudou. Quando jovem, você ganhou o Young Lions, que premia os melhores trabalhos publicitários. Já seu último prêmio, “Women to Watch”, está relacionado ao seu ativismo na causa da equidade. O que mudou?

A mudança do tipo de prêmio reflete bem a mudança do eixo da minha atuação. Antes, eu atuava para dentro só, e ganhava prêmios pelo “case” do meu trabalho. Agora, eu atuo para fora. Descobri que tenho este talento. Eu reúno pessoas em torno de um projeto, as deixo motivadas, faço elas acreditarem nelas mesmas. Faço isso bem e gosto de fazer isso. Me faz bem, espiritualmente bem. Eu tento fazer o meu trabalho hoje me perguntando e entendendo que tipo de legado eu quero construir. Penso que o legado que eu quero deixar está relacionado na construção do conhecimento e na contribuição em mudanças sólidas para uma sociedade melhor. Esta é a minha missão. Este é o legado que eu quero deixar e como eu quero que as pessoas lembrem de mim. Pode ser com o que eu faço hoje ou outra coisa diferente, mas saber que legado eu quero deixar me permite filtrar o tipo trabalho em que eu quero atuar e ampliar minhas possibilidades de atuação.

E quais são seus próximos projetos? 

Meu grande projeto para 2019 é terminar minha tese, que está relacionada com essa minha atuação em deixar explícito os vieses culturais, as diferenças entre homens e mulheres e como a gente acaba boicotando um ao outro sem pensar. Espero que dê tudo certo. 

Um outro projeto que tenho é a tradução para inglês e espanhol do curso de liderança que eu desenvolvi, o “Like a Boss” . Este é um projeto bastante importante, pois o curso já existe e a demanda pela versão em outras línguas também. 

Dar aulas novamente também está nos meus planos. Inicialmente, aqui nos Estados Unidos, mas estou aberta para possibilidades em faculdades no Brasil também. Mas este é um pouco mais difícil de viabilizar. 

E por fim, começo a pensar em um doutorado... ainda um plano a longo prazo. 

Sobre ser Brasileiro: Tem alguma característica da cultura brasileira que você acredita tenha sido fundamental na construção da sua trajetória? 

Para mim, ser brasileiro e ter esta característica humana de ser acolhedor com as pessoas nos ajuda a ter menos barreiras para nos conectarmos com o outro. Esta coisa nossa de sempre começar uma conversa com uma história pessoal ajuda muito a estabelecer relacionamentos. Não tenho certeza, mas acredito que ser brasileiro também possibilita desenvolver mais empatia com o outro, ter esta capacidade de se colocar no lugar do outro. 

Outra característica é esta nossa capacidade de enfrentar as adversidades. Aqui, as pessoas reclamam do que a gente chama de “problemas do primeiro mundo”, que acabam sendo até superficiais muitas vezes. No Brasil, temos problemas reais e mais graves. Isso nos ajuda a ter uma visão mais profunda, enxergando a complexidade das coisas. 

Justamente por falta de recursos, a gente aprende também a usar, com muita inteligência, aquilo que temos disponíveis para atingir nosso objetivo. Temos o nosso lado “MacGyver”, de fazer o que tivermos que fazer com os recursos disponíveis. Não esperamos cair nada no colo. Fazemos acontecer. Damos um jeito. Aliás, isso de dar um jeito é muito nosso. Alguns chamam de improviso, acho que é criatividade. 

E outra coisa: pelo menos neste mercado em que eu trabalho, o brasileiro faz tudo com muito mais paixão do que outras culturas. A gente dificilmente vê o trabalho como mero emprego; vemos como parte da nossa vida. Então somos muito mais proativos, entregando coisas além do que nos foi pedido, sempre muito engajados. 

E qual lado positivo do Brasil mais representa quem você é? 

Esta coisa do Brasil ser a cultura das misturas, do imprevisível, fora da rotina, de surpreender, nada muito cartesiano, que cria e transforma. Esta sou eu.

Para finalizar, tem algo que você gostaria de comentar que não falamos em nossa conversa?

Sim. Eu estou criando um filho, um menino, um brasileiro fora do Brasil. É uma mega responsabilidade. Eu tenho sempre que mostrar para ele o que é aqui e o que é o Brasil. A escola na qual ele estuda aqui é pró justiça e natureza, com crianças de diferentes níveis culturais, sociais e econômicos e diferentes arranjos familiares. Não tem este tipo de escola no Brasil. Esta realidade é muito diferente lá. Ele acha injusto. Eu concordo. Mas tento educá-lo para que ele não apenas ache injusto, mas principalmente se questione o que pode ser feito para melhorar. O que nós podemos fazer para ser menos injusto. Eu estou tentando proporcionar para o meu filho um ambiente em que ele se torne um agente de transformação, e não apenas mais um brasileiro que mora fora olhando com tristeza do que acontece no Brasil. Talvez este seja o meu maior desafio. 

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Beatriz Mello

Beatriz Mello é curiosa por natureza e publicitária e cientista social por profissão. Trabalhou em empresas de mídia como Globosat, Viacom e Discovery. Vive em Berlim, onde, recentemente, especializou-se em Liderança Criativa e fundou a “Tropical Intelligence- Insigthfull Data Storytelling”, uma consultoria de dados para indústria criativa. É uma brasileira de destaque na área de Dados e Conhecimento do Consumidor e escreve sobre outras mulheres que representam positivamente o Brasil.