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As muitas lusofonias: a diversidade das línguas em português é a riqueza que nos une

05/05/2019 Cristian Góes POLH/PLH

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Foto: © Museu Bispo do Rosário / RJ

O Dia da Língua Portuguesa é lembrado em 5 de maio. Ora, mas de que língua portuguesa estou falando ou a falar? Do português em que se expressam os brasileiros ou dos falares que se ouvem em Portugal? Da língua em que uma parte dos timorenses, macaenses e goenses se expressa? Da língua portuguesa de angolanos, cabo-verdianos, guineenses, moçambicanos, são-tomenses? Dos falares portugueses dos galegos e de tantos povos espalhados pelo mundo? Essas perguntas não precisam ser respondidas agora, apenas servem para ajudar a pensar sobre a língua portuguesa em sua multiplicidade, possibilidade e desafio.

De saída, concordo com José Saramago quando ele disse que não há uma língua portuguesa, mas várias línguas em português. Acrescento aqui, porém, que dizer que há várias línguas que falam em português não implica submissão e hierarquia entre elas, mas relação. Outro português também se manifesta assim. Eduardo Lourenço (2001, p. 189) garante que “não é Portugal ou os outros países lusófonos que falam o português, é a língua portuguesa que fala Portugal e esses outros países”.

Assim como esses pensadores portugueses, existem muitos outros que tratam essa língua de modo mais aberto à pluralidade e diversidade, pois, de fato, não há mesmo uma língua portuguesa, nem única, nem pura nem fixa. O português falado em Angola, Brasil, Cabo Verde, Galiza, Goa, Guiné Bissau, Macau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor Leste e em outros lugares carregara, ao mesmo tempo, as marcas profundas da diversidade, mas lastreadas por algum sinal de unidade e singularidade que podemos chamar de lusofonia.

Colcha de retalhos coloridos

A lusofonia, que é uma palavra de sonoridade agradável, representa essa proposta de unidade linguística de milhões de pessoas que se expressam e se reconhecem falando em português ou algo bem parecido. Entretanto, como bem sugere a própria língua portuguesa, é preciso avançar sobre as possibilidades de sentidos das palavras. Nunca uma palavra encerra sentido nela mesmo. É assim com a lusofonia, que exige um conceito alargado na medida em que a diversidade cultural dos lusofalantes na África, Ásia, América do Sul e Europa é uma marca central para o seu entendimento. 

A incontrolável mistura histórica, cultural e identitária dos povos lusófonos atravessa profundamente toda concepção de lusofonia e, o mais incrível disso, não a destrói, nem a desfigura, tampouco a desmantela, muito ao contrário, enriquece-a e a elava de uma condição singular e, em certa medida, limitada para um quadro aberto e plural. Em resumo, o que temos não é uma lusofonia, mas várias lusofonias.

Talvez uma metáfora ajude a compreender melhor esse movimento de unidade produzido pela diversidade. Para alguns, a lusofonia é como se fosse um gigantesco lençol uno, de um branco límpido e homogêneo, lançado de Portugal a cobrir todo o “mundo lusófono”. Assim, todos nós, à sombra desse manto uniforme confeccionado em uma pátria mãe, seríamos unificados por uma única língua portuguesa. 

Entretanto, a realidade se impõe inexoravelmente. Não discordo que esse grande lençol da lusofonia exista enquanto ideia de alguma unidade, mas ele não é uno, branco e muito menos homogêneo. Além disso, aquela condição de partida, de onde se lança o pano, já foi diluída de tal forma no tempo e no espaço que é impossível saber, hoje, onde começa e onde termina esse grande lençol. 

Em razão da incontestável diversidade cultural dos povos lusófonos, penso que esse manto que tenta nos envolver é, na verdade, uma gigantesca colcha de retalhos, como fazia o artista brasileiro Arthur Bispo do Rosário (1909-1989); uma colcha de panos coloridos, de vários tamanhos e texturas, de vários dizeres e sentidos que vai sendo tecida e alinhavada pelos povos, em seus ritmos culturais, políticos e econômicos, e sem se deixar prender às imposições linguísticas.

Esse manto, construído a partir de retalhos coloridos e assimétricos, tem um movimento sem fim porque a língua - seja ela qual for – é um elemento vivo, instável e incontrolado. No caso da língua portuguesa, ainda há uma condição de existência que talvez não se encontre em outros falares: uma abertura permanente para acolher sempre novos e criativos retalhos; está aí a chave de leitura para compreender sua riqueza e vitalidade.

Lusofonias, mátria e frátria

Considerar as lusofonias, no plural, é reconhecer as inúmeras possibilidades de sentido que a língua portuguesa tem e nos convida a alcançar para além dela, libertando-a de um conceito fixo e de vários preconceitos que a aprisionam em si mesma. Temos lusofonias porque elas são, ao mesmo tempo, angolanas, brasileiras, cabo-verdianas, galegas, goenses, guineenses, moçambicanas, portuguesas, são-tomenses, timorenses etc. 

E é nessa diversidade de mapas culturais, históricos, políticos e econômicos desses povos que está o segredo da riqueza e da unidade da língua portuguesa. Assim, a língua portuguesa não nos transforma em uma pátria, lugar delimitado, com fronteiras definidas para o exercício de poder, mas, em razão exatamente da diversidade e da abertura para o acolhimento, a língua portuguesa nos transforma em mátria, ou, como diz o português Moisés de Lemos Martins (2015), em um “frátria”, isto é, em um espaço de iguais.

Assim, reconhecer as lusofonias vivas e no plural não é um capricho gramático, mas uma ação política que implica valorizar a diversidade, trazendo à luz da experiência cotidiana as riquezas e possibilidades criativas da língua portuguesa. Como disse, deixo claro que a língua portuguesa não tem um dono, não é de ninguém e, ao mesmo tempo, é de todos nós. Por mais tentativas que apareçam, a língua não se submete às imposições institucionais e aos enquadramentos ditados de poucos iluminados.

A certidão de nascimento

Essa compreensão em torno da língua portuguesa que faz perceber as várias lusofonias não reduz ou apaga a importância de sua certidão de nascimento, muito pelo contrário. A raiz etimológica – luso – remete a Portugal, sim, e à província do ano 29 a.C., a Lusitânia. Isso é incontestável. Porém, ter esse ponto de partida e reconhecer essa gênese não deve significar a construção de um muro para, ilusoriamente, aprisionar a língua e seus falantes, fechando-se em si mesmos. Se fosse assim, teríamos uma única lusofonia e uma fantasiosa homogeneidade a abarcar mais de 280 milhões de lusofalantes espalhados pelo mundo.

Essa certidão de nascimento é importante até para percebermos os movimentos da língua, seja como instrumento de exercício de poder, seja como modo de resistência. Por exemplo, não se pode fechar os olhos para o fato de a língua portuguesa ter sido uma imposição nas colônias. O Marquês de Pombal, em 1757, chegou a proibiu nas colônias outro falar que não fosse a língua de Camões. 

Apesar da imposição, que é um modo de exercício de poder, a língua portuguesa ultrapassou as intenções imperiais. Veja que curioso: muitos dos processos de resistência a essa mesma dominação portuguesa na África, no Brasil e na Ásia também ocorreram com a utilização da língua portuguesa. Em Macau, em Goa e na Galiza, o falar em português ou algo aproximado a ele pode ser entendido como modo de resistência identitária nessas regiões em que as comunidades buscam na língua portuguesa localizar seu pertencimento às lusofonias. 

Se a colonização produziu, de fato, uma profunda hibridização social em razão da violência escravagista, seu resultado inesperado foi o entrelaçamento de várias culturas e, nelas, de outras línguas, extremamente ricas, para além do português vindo de uma parte da Europa. Mais uma vez: é por isso que não temos uma única lusofonia nem poderíamos ter, pois ela não emana de uma única fonte. Absolutamente, não há controle sobre os vários modos de se expressar em português e, em todas as bocas, consciências e lugares, esse português é enriquecido, cantado, lamentado, sonhado e resistido em uma colcha colorida de retalhos. 

Quando digo que há várias lusofonias é porque o centro desse falar comum ou aproximado, que é a língua portuguesa, é um objeto em constantes transformações, sendo ela valorada por inúmeras variantes dos falares, dos sons, das entonações e dos jeitos dos povos africanos, asiáticos, sul-americanos e europeus. A língua portuguesa precisa ser festejada como lugar de um encontro fantástico onde emergem as profundas raízes que sustentam frondosos troncos históricos entre nós. Sabemos que nos países africanos, ex-colônias portuguesas, o português não é majoritário e divide o espaço dos falantes com inúmeras línguas locais. No Brasil, a língua portuguesa não é a de Portugal, que, por sua vez, é diferente da dos países africanos e do Timor-Leste, da Galiza, de Goa e de Macau.

Língua de todos nós

Diante desse quadro, reforço a ideia de que a língua portuguesa ganhou uma dimensão em que não é mais possível identificar o seu dono, se é que o teve algum dia. O dono somos todos nós, todos os seus falantes. É assim que Lourenço (2001) a trata. Ele assegura que a língua portuguesa é “uma invenção de quem a fala”. Em seu entender, a lusofonia não pode, nem sequer metaforicamente, ser imaginada como um espaço centralizado e limitado. Por isso, por ser tão diversa, aberta e incontrolada, a língua portuguesa não é um legado exclusivo desse ou daquele povo, mas uma construção permanente a acolher toda sua pluralidade. 

Diz Lourenço que “da América à Ásia, cada povo que fala hoje o português a modelou, a recriou à sua imagem. Nenhum exemplo é mais relevante do que o Brasil. É um continente escrito em português, mas num português-outro, adoçado pela brisa dos trópicos, a música africana, o contributo de todos os que o destino aí levou ao longo dos últimos dois séculos”.

Ao contrário dessa ilusória homogeneização em torno da língua portuguesa, as lusofonias podem e devem ser a celebração do encontro da diversidade em razão do processo histórico profundamente entrelaçado entre seus povos. É esse lugar que pode nos fazer vivenciar uma comunidade que é, ao mesmo tempo, angolana, brasileira, cabo-verdiana, galega, goense, guineense, moçambicana, portuguesa, são-tomense e timorense. 

Das potências aos desafios

Reconhecer que realizamos a experiência das lusofonias é dar um salto humano ao imaginar a língua portuguesa como uma potência para o acolhimento da diversidade, transformando nossas expressões em abraços, em ricas manifestações de um reconhecimento identitário fraterno e em portas e janelas abertas para inúmeras possibilidades de sentidos. São exatamente as diferenças, as diversidades e as liberdades que nos transformam em uma casa comum. É o acolher da pluralidade que nos faz unidade. Perceba que isso inverte a lógica do centro vertical produtor e controlador da língua e da cultura. A proposta é desconstruí-lo para reconhecer os vários pontos horizontais e diversos em todos os cantos a enriquecer as lusofonias. 

É claro que essa não é uma tarefa fácil. Talvez o maior obstáculo seja o não reconhecimento da existência do espelho Entre Nós, isto é, de não nos enxergarmos como povos que utilizam as línguas portuguesas como expressões de nossas vidas narrativas comuns. Além de não querer nos enxergar, lutamos para que esse espelho não reflita o Outro, aquela diferença que é exatamente como Nós e que nos constitui como Nós Mesmos. Esse é um desafio que está presente e que temos que enfrentar falando sempre em português.

 

REFERÊNCIAS

Lourenço, E. (2001). A nau de Ícaro e a imagem e miragem da lusofonia. São Paulo: Companhia das Letras.

Martins, M. L. (2015), Lusofonia e Interculturalidade: promessa e travessia. Braga: UMinho e Húmus.

 

 

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Cristian Góes

Jornalista. Doutor em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com doutorado sanduíche na Universidade do Minho, em Portugal. É mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). Especialista em Gestão Pública (FGV) e em Comunicação da Gestão de Crise (Gama Filho). É membro da Comissão Nacional de Ética dos Jornalistas Brasileiros e professor voluntário de Jornalismo na UFS. (cristiangoes_brasil@yahoo.com.br)