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"A ideia é reivindicar uma outra cidade"

05/04/2019 Bianca Donatangelo Terceiro Setor e Cidadania

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Atividade festiva: população é convidada a tomar banho e se divertir nas águas limpas que correm pela cidade e não são percebidas.  (Foto: Reprodução/ Divulgação)  

São Paulo foi erguida (e permanece crescendo) sobre uma imensa bacia hidrográfica. “São cursos d’água, córregos e rios que foram canalizados por um urbanismo que privilegiou o automóvel”, explica Wellington Tibério. “Ruas e avenidas foram construídas sobre nossos leitos fluviais. Pior ainda, esses cursos d’água passaram a ter a função de escoar parte significativa do esgoto não tratado da cidade.” 

Músico e professor de Geografia, Tibério é um dos líderes organizadores do (se)cura humana – uma iniciativa que vem há alguns anos questionando a lógica paulistana de urbanização. Junto com o ator e engenheiro civil Flavio Barollo e inúmeros outros ativistas, ele reivindica mais natureza na cidade. 

Nesse contexto, a gota d’água foi a crise de abastecimento que teve início em São Paulo no ano de 2014. “A situação era bastante absurda: não tínhamos água em nossas torneiras devido ao frequente racionamento imposto mas, caminhando pela cidade com um olhar atento, era possível identificar vários pontos onde água limpa jorrava e corria pela sarjeta”, conta Tibério. 

Segundo ele, essa água tem origem em diversas nascentes e também jorra por meio do chamado “rebaixamento de lençol freático” (uma situação muito comum na cidade, em que prédios bombeiam para a rua o que mina em seu subsolo, jogando água fora de maneira constante). 

  

Fotos: Reprodução/ Divulgação

“A gente se perguntava como era possível nos faltar água e, ao mesmo tempo, termos esse recurso em abundância correndo pelas sarjetas de São Paulo? Como era possível nos faltar água e, ao mesmo tempo, jogarmos nossos esgotos em rios e córregos espalhados pela cidade?”, relembra Tibério. 

A partir daí – e diante da percepção avassaladora gerada por tantos rios soterrados, canalizados e poluídos – o grupo começou a agir criando uma série de intervenções urbanas, artísticas, ecológicas e festivas. “A ideia é reivindicar uma outra cidade, mas fazer isso já tornando-a realidade”, conta o ativista. 

Lagos urbanos 

“Nessa perspectiva, uma ação muito interessante passou a ser a construção de lagos pela cidade”, continua Tibério. “Em uma área urbana com poucos espaços livres e verdes, com quase nenhum lugar disponível para um momento mais contemplativo, o surgimento de pequenos lagos representa uma ruptura. É uma brecha que, além de nos sugerir uma revisão de nosso urbanismo, nos mostra a presença de algo que achávamos que não havia mais entre nós, em plena metrópole: água limpa surgindo da terra.” 

Foi o caso do Lago da Travessa Roque Adóglio, construído pelo coletivo em torno do (se)cura humana, utilizando as águas de uma nascente do córrego Água Preta e empregando diversos peixes. O sucesso foi enorme entre os moradores da região. “O lago cria um impacto duradouro, pois sua característica perene envolve as pessoas a longo prazo”, esclarece Tibério. “Uma vez finalizado, ele cria uma dinâmica a seu redor que é muito potente do ponto de vista da sociabilidade. Muita gente passa a cuidar do lago, dos peixes e das plantas, fazendo pequenas manutenções. Também as crianças se apropriam daquele espaço de forma lúdica – ali vira um lugar agradável de encontro.” 

Ainda assim houve quem se alarmasse com uma possível proliferação de doenças pelo bairro. Em carta aberta, os membros da coletividade envolvida enfatizaram entretanto que o lago não representa tal perigo – muito pelo contrário: “A característica principal que não faz do lago um foco de reprodução de mosquitos é a presença de peixes. Qualquer inseto que colocar suas larvas ali não terá sucesso em se reproduzir porque os vários peixes irão comê-las rapidamente. Aquela clássica minhoquinha se balançando na água é um petisco para os peixes e, portanto, o lago funciona como uma armadilha que até mesmo inviabiliza a reprodução dos mosquitos.” 

Outro ponto que os ativistas ressaltam é a manutenção descentralizada dos espaços. “Não é porque algo não tem um dono que não será cuidado”, esclarece Tibério. “Nenhuma construção que fazemos é de água parada. Criamos lagos com entrada e saída de água, cuja dinâmica constante somada à presença de peixes e plantas cria um pequeno ecossistema que se regula minimamente. No entanto, como certa manutenção ainda é necessária, nós passamos de vez em quando para dar uma olhada e, nesses casos, sempre notamos que alguns moradores do entorno ou indivíduos que passam por ali todos os dias abraçam a causa. São pessoas comuns, muitas vezes anônimas, que vão se apropriando do lago em um formato nada institucionalizado, à medida que passam a cuidar dos peixes e das plantas nutrindo uma relação de afeto com aquele espaço e tomando conta de algo que torna nossa vida mais agradável na cidade. Isso é um aprendizado importante que mostra que a rua não é só destruição.” 

Festa politizadora 

Outro exemplo bem-sucedido da iniciativa (se)cura humana para resistir à urbanização desenfreada e, simultaneamente, elevar a consciência ambiental e a interação sociocultural são os Parques Aquáticos Móveis. Tibério explica: “Trata-se de um happening, isto é, de uma atividade festiva em que convidamos a população para tomar banho e se divertir nas águas limpas que correm pela cidade e que não são percebidas.” 

Para tanto, de acordo com o ativista, o grupo identifica alguma nascente ou ponto de despejo realizado por prédios por meio do rebaixamento de lençol freático. “Aí analisamos a água para ter uma garantia mínima de que não há nela riscos à saúde, levamos nossos equipamentos que consistem em bombas, caixa d’água de 1.000 litros, piscinas infláveis e rede de energia com baterias, enchendo então os reservatórios e jogando a água a sete metros de altura para que todos se divirtam em pleno asfalto da metrópole.” Barollo acrescenta: “É como uma espécie de cachoeira urbana por meio da qual damos visibilidade àquela água tão esquecida e invisível, mas que mesmo na época da crise hídrica nunca cessava de jorrar.” 

Foto: Reprodução/ Divulgação

Ambos ressaltam que a performance em espaço público é uma forma, ainda que passageira, de criar espaços de convivência e alegria com recursos que estão disponíveis. “Também é uma ato artístico e político tendo em vista o descompasso que esses acontecimentos proporcionam em relação à dinâmica regrada da cidade. O Parque Aquático Móvel aproveita a água que aparece na superfície antes de se perder no meio-fio. É um hiato de celebração da vida e da natureza e, como um lapso do tempo e do espaço, nos confirma que vivemos em uma outra cidade possível.” 

Exemplo de reflexão sobre urbanização e conscientização ambiental Tibério destaca que “aproveitar as águas da cidade abre uma perspectiva para a própria população cuidar da natureza presente no espaço em que vive”. Trata-se de uma mudança de percepção e de comportamento que, aos poucos, vai envolvendo e motivando cada vez mais pessoas. 

Joseli de Souza Garcia, moradora da zona oeste de São Paulo, realizou um trabalho de conclusão de curso sobre o Parque Aquático Móvel na Vila Anglo Brasileira. Ela testemunha: “Os organizadores contribuem para que a cidade de São Paulo se torne mais ecologicamente consciente e divertida. Com suas atividades ligadas aos rios que foram canalizados pela ação humana e que agora são descobertos no formato de eventos culturais, estamos todos mobilizados, criando espaços de lazer e recuperando nossa sociabilidade.” Com foco específico na gestão da iniciativa, a pesquisadora afirma que as ações do movimento trazem consigo “uma reflexão e uma consciência crítica de que não existe falta de água e, sim, uma má distribuição dela”. 

De fato, como descreve Tibério, o abastecimento da cidade de São Paulo ocorre com água captada cada vez mais distante, ao passo que ignoramos os recursos hídricos que já estão na própria região ou os utilizamos como meio de deslocar o esgoto para longe. “Seja como for, há algo de errado nesse mecanismo.” 

Nova lógica necessária 

Embora a SABESP (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) seja o órgão responsável pelo abastecimento e tratamento da água para cerca de 28 milhões de pessoas – atendendo a 371 dos 645 municípios paulistas, incluindo a capital – não há qualquer participação da mesma na iniciativa (se)cura humana. 

Tibério afirma: “Nosso grande parceiro poderia ser a gestão pública, uma vez que ela é a responsável pelos espaços em que atuamos. O que fazemos precisa ser visto como importante pela administração da cidade e de seus recursos. Mas ainda não é. Quem sabe um dia conseguiremos reverter a lógica que fundamenta a ação de uma empresa que é responsável pelo abastecimento e saneamento básico de grande parte do Estado de São Paulo.” 

Enquanto isso não acontece, mesmo sem respaldo estatal, o movimento vem reverberando suas ideias e sensibilizando cada vez mais parcelas da população. “Agimos de maneira provocativa nos corações e mentes dos cidadãos. É dessa forma que acreditamos ser possível alcançar alguma mudança no paradigma que norteia as relações que estabelecemos com nossas águas”, aponta Tibério. 

“Assim, nossas realizações ocorrem por conta própria e contam sempre com o apoio de amigos e parceiros”, explica o professor de Geografia. “Como temos outras atividades profissionais, temos que encaixar o que fazemos em nossos tempos livres, sendo que os custos das ações resultantes são arcados por nós mesmos. Já virou uma mania, aliás, andarmos pela cidade com o olhar atento à presença de água.” 

Constatações e perspectivas 

Colocar em questão o desperdício e enaltecer esse recurso fundamental à vida é simplesmente elementar para os envolvidos no movimento (se)cura humana. 

Barollo comenta que São Paulo teve um crescimento que passou por cima de toda lógica ambiental e sustentável. “Os três principais rios da cidade – Tietê, Pinheiros e Tamanduateí – já foram navegáveis e nadáveis, mas hoje estão entre os rios mais poluídos do mundo. Ao mesmo tempo, a intensa especulação imobiliária fez e faz com que a maioria dos prédios perfure os lençóis freáticos com suas fundações, jorrando para a rua muita água limpa!” 

O ativista aponta que a realidade da maior parte dos edifícios paulistanos é ter uma bomba d’água ligada 24 horas por dia, para que os subsolos não fiquem inundados. Com veemência, contudo, ele garante que há soluções: “Já existem formas, por exemplo, de não utilizarmos nossas correntezas naturais para nos livrar de dejetos. Já existem técnicas variadas, como as da permacultura. Definitivamente, já temos conhecimento suficiente para rearranjarmos os rumos do progresso até então.” 

Tibério resume: “Nossas ações possuem um viés ambiental que atua como um provocador para vislumbrarmos novas possibilidades de interações com o espaço urbano, que é e deve ser de todos. Acreditamos ser possível alcançarmos uma mudança no paradigma que norteia as relações que estabelecemos com nossas águas.”

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Bianca Donatangelo

Paulistana de berço e berlinense de coração, é jornalista profissional e trabalha para diversas agências alemãs de comunicação – editando, por exemplo, a versão em português de revistas corporativas internacionais. Já desde a virada do milênio, entretanto, é conhecida sobretudo por se empenhar de corpo e alma por uma melhor divulgação do Brasil na Alemanha.